Domingo, 19 de julho de 2026
Por Redação O Sul | 14 de novembro de 2018
Tratamento com cannabis não é a cura nem solução para tudo que a medicina convencional não consegue tratar, mas pode mudar vidas. A neurologista pediátrica israelense Orit Stolar vê isso acontecer todos os dias no Centro Médico Assaf Harofeh, em Israel.
Ela dirige o Programa de Intervenção Precoce “Alutaf”, um projeto combinado entre o hospital em que trabalha e a Alut (Associação Nacional Israelense para crianças com autismo). Cética no passado em relação ao uso medicinal do extrato de cannabis (no Brasil, o óleo é conhecido como canabidiol), hoje Orit enumera vários avanços em redução de raiva, ansiedade e hiperatividade, além de melhora do sono e integração social em pacientes com autismo que usam o extrato.
Em entrevista em São Paulo, onde participou do 1º Congresso Internacional de Medicina Canabinoide, CannX, a neurologista israelense diz que o estudo continuado sobre o extrato de cannabis pode, ainda, ajudar em novas descobertas sobre o autismo.
1) Qual é a visão no meio médico sobre os benefícios do extrato de cannabis para pacientes?
O extrato de cannabis tem um grande potencial de fazer o bem. Ninguém dizia claramente isso há alguns anos. Diziam que era só uma moda, que ali não havia nada. Mas mergulhei nisso nos últimos cinco anos por causa dos pacientes. E passamos por altos e baixos. Estou aprendendo com eles. O que vejo é que há histórias incríveis que só são possíveis por causa do extrato de cannabis, quando medicamentos convencionais não conseguiram. Mas não é 100% exitoso. Tenho pacientes que usaram e foi um sucesso. Com outros, foi um desastre. Depende dos pacientes e do que se está dando. Há um tempo de ajuste até chegar ao princípio ativo ideal, se é CBD, ou THC, e em que dosagens.
2) A senhora atende crianças com autismo. Qual tem sido a maior aplicação do canabidiol no ambiente pediátrico?
Conheço casos com ótimos resultados para crianças com epilepsia, ou em tratamento quimioterápico. É apenas o começo. No caso do autismo, não significa a cura nem a solução definitiva, mas certamente ajuda nos sintomas. Ajuda a dar ferramentas para que a criança lide com suas dificuldades, se comunique melhor, esteja mais equilibrada. É um trabalho de intervenção no comportamento. Tenho um paciente com síndrome de Tourette. Tentei de tudo e não conseguia melhorar a vida dele. Ele estava mal. E eu sabia que adultos com Tourette usavam extrato de cannabis. Então decidimos tentar com ele, que tinha 14 anos na época. No início, ele piorou. Fiquei aterrorizada. Mas fomos ajustando as concentrações e cepas até que ele chegou ao melhor ponto de qualidade de vida que já teve. Ainda tem os tiques, mas está muito melhor. Tem vida social, sai com os amigos. Levou meses. Mas é um garoto diferente agora. Tive outro paciente que quebrava mesa, televisão. A mãe me mandou uma foto da casa destruída e pediu ajuda. Queria que eu aumentasse a dispiridona (tipo de antipsicótico). Indiquei o extrato de cannabis. Poucos dias depois, eles tiveram o primeiro jantar em família desde que o menino nasceu.
3) Como começou a incluir o canabidiol como parte do tratamento com crianças?
Nunca pensei que faria isso. Era cética, inclusive. Mas comecei a ver o efeito nos pacientes. Lembro de um paciente que era tratado com dispiridona. Era um caso difícil. Quando voltou para consulta, perguntei à mãe o que ela tinha feito. Ele estava diferente. Ela ficou quieta, porque tinha conseguido ilegalmente, mas me disse que estava dando extrato de cannabis a ele. Foi a primeira vez que acompanhei essa diferença. Uma criança que não conseguia ficar sentada na cadeira, que era muito agitada. Vamos aprendendo aos poucos. Não é um tratamento mágico. Mas tem seu lugar e pode ser oferecido aos pacientes.
4) Como é a regulamentação do canabidiol em Israel?
Estamos bem avançados nessa área. Temos uma produção nacional de cannabis para fins médicos. Existem oito fornecedores em Israel. O uso de cannabis medicinal é aprovado para o tratamento de adultos, em casos de dor, pacientes com câncer, síndrome de Tourette, estresse pós-traumático, entre outros. Com as crianças, a história é outra. Em casos de epilepsia intratável, em que se tentaram mais de quatro tipos de medicamentos sem progresso, se consegue o acesso ao canabidiol facilmente. No caso do autismo, não há uma indicação aprovada. Mas o médico pode escrever uma carta ao governo detalhando a situação, o que já foi tentado, e na maioria das vezes se consegue uma aprovação legal.
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