Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 13 de abril de 2020
Com a multiplicação de casos, o novo coronavírus está matando mais brasileiros fora dos principais grupos de risco, compostos por idosos e aqueles com comorbidades. Levantamento do jornal O Globo utilizando as estatísticas do Ministério da Saúde mostra que, entre os dias 27 de março e 11 de abril, os óbitos de quem tem menos de 60 anos saltaram de 11% para 25% do total, enquanto entre pessoas sem doenças preexistentes, como diabetes e cardiopatias, passaram de 15% para 26%.
Para o Ministério da Saúde, são fatores para a mudança de quadro o avanço da pandemia nas periferias das cidades, onde há condições precárias de moradia e mais incentivo à saída de casa para o trabalho, e a elevada incidência de outras doenças virais, como influenza A e B, o que abre o organismo à Covid-19. Especialistas alertam que os dados reforçam a necessidade de isolamento social amplo como prevenção ao contágio, uma vez que está cada vez mais difícil isolar grupos mais suscetíveis à doença. Boletim de ontem do governo federal apontou que, em 24 horas, o Brasil registrou 1.442 novos casos e 99 mortes.
No Brasil, um quarto dos mortos por Covid-19 desde o primeiro registro da doença no País não faz parte dos chamados grupos de risco — ou seja, 25% das vítimas fatais são pessoas com menos de 60 anos e sem comorbidades que agravam os sintomas. Esse número disparou nos últimos 15 dias, segundo levantamento do Globo feito com base em dados no Ministério da Saúde.
Até o dia 27 de março, apenas 11% dos óbitos foram vistos entre pessoas com menos de 60 anos, e somente 15% das vítimas fatais não apresentavam comorbidades. Agora, porém, esses índices aumentaram — 25% das mortes ocorrem entre pessoas com menos de 60 anos, e 26% dos óbitos foram em pacientes sem registro de doenças preexistentes, como diabetes, cardiopatias e pneumopatias.
O País, então, segue um padrão diferente de nações como a Espanha, a segunda com maior número de óbitos — cerca de 166 mil, atrás apenas dos Estados Unidos. No Brasil, a proporção de pessoas abaixo dos 60 anos de idade que morreram pela Covid-19 é mais de cinco vezes maior que a registrada na Espanha (4,6%).
Com base na premissa de que a doença é mais perigosa para idosos e pessoas com comorbidades, empresários e políticos, entre eles o presidente Jair Bolsonaro, vêm defendendo a estratégia conhecida como isolamento vertical, na qual apenas as pessoas consideradas dentro de um grupo de risco seriam submetidas ao isolamento social. O Ministério da Saúde, no entanto, vem defendendo que ainda não é hora de relaxar as medidas de isolamento para todos os que podem ficar em casa.
Secretário-executivo do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), Jurandi Frutuoso diz acreditar que o aumento dos óbitos entre pessoas fora dos grupos de risco no Brasil mostra que isolamento vertical não faria sentido:
“Se você tem um número cada vez maior de jovens e pessoas saudáveis morrendo da doença, não faz sentido falar em isolar grupo de risco. Não seria eficaz.”
Uma das explicações para a mudança de perfil dos mortos no Brasil está no fator socioeconômico, segundo especialistas. Professor do Departamento de Epidemiologia da USP, Eliseu Alves Waldman afirma que o coronavírus está chegando na periferia das grandes cidades, onde a população é “socialmente mais vulnerável”. Antes, tinha atingido apenas setores da elite, com acessoa um melhor atendimento de saúde.
“O coronavírus podes e expandir muito nessa região( nas periferias), porque as condições de moradia são mais frágeis. As casas são pequenas, e há várias dividindo o mesmo dormitório”, afirma.
O número de mortos fora do grupo de risco poderia, portanto, continuar a crescer — o que não significa que idosos e pessoas com comorbidades corram menor risco.
Professora visitante da Fiocruz, a italiana Marta Giovanetti afirma que o Brasil “aprendeu lições” com os países europeus, e não deve expor a população, principalmente em comunidades.
“Algumas pessoas podem ter pensado que valeria a pena expor a população que não pertence à zona de risco elevá-las ao trabalho, mas sabemos que elas também podem ser vulneráveis. Todos estão sujeitos ao contágio, e pode haver uma procura em massa do SUS, o que vai gerar em seu colapso.
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