Sábado, 12 de Junho de 2021

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Lenio Streck No Brasil, pode-se provar que os coelhos são predadores das raposas

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(Foto: Reprodução)

Lido com dissertações teses todos os dias. Orientador sofre. Muitos orientadores não dão bola para o que o orientando escreve. É um problema, porque passa pelo orientador o “tipo de droga desenvolvida”, para usar a linguagem da medicina.

Exercitemos a imaginação. Para isso, conto aqui uma estorinha.

Cena 1. O doutorando coelho saiu de sua toca com o seu lepitopi e pôs-se a trabalhar. Passou por ali a mestranda raposa — que fazia dissertação sobre o tema Interpretação Conforme a Alimentação das Raposas: as obviedades do óbvio na cadeia alimentar — e viu aquele suculento coelhinho “a disposição”. E salivou, curiosa, perguntando:

“— Coelhinho, o que você está fazendo aí tão concentrado?” Estou redigindo a minha tese de doutorado, respondeu o coelho. “Chama-se De como os coelhos são os predadores naturais das raposas. Já tem até banca formada: um jornalista, um juiz e um ministro. Sabe como é: o negacionismo está na moda. E é cientifico”.

E a raposa: “Ora, isso é ridículo! Nós, raposas, é que somos os predadores dos coelhos! Somos os juízes naturais dos cunniculuns. Todos sabem disso”.

E redarguiu o coelho: “— Posso demonstrar o que estou dizendo. Acompanhe-me à minha toca-biblioteca”.

O coelho e a raposa entram na toca. Instantes depois, ouvem-se alguns ruídos indecifráveis. Em seguida o coelho volta, sozinho, e retoma os trabalhos da sua tese.

Cena 2. O coelho continua trabalhando. Passa, então, o bacharel lobo, que fazia mestrado sobre Como Aprender a preparar coelhos suculentos – o universo da Globo News em fogo brando. Já tinha a banca: O arrependido Merval seria o presidente. Ao ver o apetitoso coelhinho, salivou e perguntou sobre a tese.

E o coelho respondeu: “Minha tese de doutorado, caro Bel. Lobo, é demonstrar que nós somos os grandes predadores dos lobos”. “E posso demonstrar. Acompanhe-me”. E ambos desaparecem biblioteca a dentro. Ao depois, ouvem-se ruídos. E o coelho retorna sozinho, com seu lepitopi. Agora acende um Partagás. E faz olhar blasé.

Cena 3. Passa o doutorando coiote. Debaixo do braço trazia o livro Resumos simplificados sobre como devorar coelhos, raposas e quejandos. Ao ver o coelho, agradeceu aos céus pelo maná. Mas, antes de trinchar o coelho, indagou-lhe acerca do que fazia.

E o cunniculum respondeu: “estou concluindo minha tese que tem o título Reviravolta culinário-pragmática no ecossistema: a vez dos coelhos devorarem coiotes – análise epistemológica a partir de um predatorium turn provocado pela vontade de poder”.

O coiote rolava de rir. E o coelho, como das vezes anteriores, disse que poderia facilmente provar a sua tese. E lá se foram, coelho e coiote, para a biblioteca. De novo, ruídos e sons estranhos. E o coelho retorna ao trabalho no seu lepitopi.

Cena 4. Em cena fechada — que somente nós podemos ver — dentro da confortável toca-biblioteca vê-se uma enorme pilha de ossos e pelancas de diversas ex-raposas, ex-lobos e ex-coiotes. Ao centro das três pilhas de ossos, caixas de charutos e vinhos, vê-se um enorme Leão, bem alimentado, a palitar os dentes. No seu peito, um crachá, com a inscrição (o leitor pode preencher à vontade: Orientador, Ministro-Relator do processo, Ministro da Saúde, Presidente da República, Ministro das Relações Exteriores, etc.).

Substitua as teses do coelho por “vacinas fazem mal” ou coisas assim. E a estorinha será a mesma.

Moral da história:

– Não importa quão absurda é a tese (ou ideia) que você pretende sustentar (na política, na academia ou nos tribunais. Basta ter poder. Ou estar ao lado do poder.

– Por isso temos de controlar o poder. Ou seremos devorados. Na toca-biblioteca.

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