Terça-feira, 02 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 31 de outubro de 2015
“Você não presta, pode ir embora. Você não presta, Doca!’ ‘Eu te amo, eu te amo.’ ‘Você não presta!’ ‘Eu te amo!’” Foi esse o diálogo que a caseira Clébia Carvalho ouviu segundos antes de Doca Street descarregar, às vésperas do Réveillon, no dia 30 de dezembro de 1976, sua pistola na direção de Ângela Diniz, a milionária por quem ele largara a mulher, três meses antes.
Após se entregar, quase 20 dias depois de ter fugido da cena do crime, uma casa em Búzios (RJ), Doca deu uma versão diferente para o ataque. Antes de acertar quatro tiros em Ângela, desfigurando um dos rostos mais bonitos do Brasil, alegou ter escutado uma frase que fez seu sangue ferver e que atingiu em cheio sua honra: “Se quiser me dividir com homens e mulheres… pode ficar, seu corno”.
Verdadeira ou não, a frase caiu como uma luva para os advogados de defesa de Doca e abriu uma profunda discussão na machista sociedade brasileira dos anos 1970: que homem não perderia a cabeça em uma situação semelhante? No Brasil ainda sob a ditadura, poucas vozes se levantaram quando a vida da mulher bonita e festeira, que muito antes do culto às celebridades já era famosa e habituée de colunas sociais, foi revirada pelo avesso.
Os advogados de Doca, como era conhecido desde pequeno Raul Fernando Street, exploraram ao máximo um “defeito” de Ângela: aos 32 anos, ela prezava muito a própria liberdade. Não gostava de ser mandada e muito menos de viver como os outros achavam que ela deveria.
Em uma época em que desquites eram malvistos, Ângela não hesitou em pedir o dela. Separou-se do primeiro marido e, como castigo, o ex, um engenheiro, fez com que ela perdesse a guarda dos três filhos. Mesmo abatida, Ângela deu um jeito: visitava as crianças todos os fins de semana e chegou a botar as garras de fora. Desafiou a Justiça e sequestrou a filha para passarem um fim de ano juntas. Foi condenada a seis meses de prisão e pagou fiança para ficar livre, um ano antes de ser morta.
Foi essa Ângela guerreira, carinhosa e maternal que seus amigos exibiram na imprensa. Não faltaram palavras cruéis contra Doca, que foi apontado como um bon vivant, um homem que, aos 45 anos, viveria às custas de mulheres. Para piorar o cenário, diziam que Doca, que nunca se separava de sua pistola, era extremamente ciumento e violento.
Acossado, Doca, que nunca negou o crime, permitiu que Ângela fosse pintada como culpada pela própria desgraça. Em um Brasil que ainda se espantava com a liberdade sexual, contou que a mulher, na manhã de sua morte, teria se encantado por uma alemã na praia, convidando-a para uma festinha a três. Mortificado com o convite para o sexo grupal, feito na frente de amigos do casal, Doca teria começado uma briga.
Após a defesa soltar frases como “houve participação da vítima na eclosão do crime” e “às vezes, a reação violenta é a única saída”, ele foi condenado a dois anos de reclusão, com direito a sursis (que prevê a suspensão da execução da pena). Os jurados entenderam que Doca agiu “em legítima defesa da honra”.
“Quem ama não mata”.
Mas um novo júri foi formado em 1981. Já era o Brasil da Abertura, um pouco diferente daquele do crime. Grupos feministas criaram o bordão “Quem ama não mata” e foram para a porta do tribunal pedir a extinção do típico machão, personificado por Doca. Deu certo. O criminoso foi condenado a 15 anos de prisão. A memória de Ângela, porém, foi mais uma vez atacada sem dó. A campanha foi tão forte que até o poeta Carlos Drummond de Andrade se intrometeu: “Aquela moça continua sendo assassinada todos os dias e de diferentes maneiras”, lamentou em uma crônica.
Doca ficou três anos e meio dentro de uma cela. Depois, conquistou o regime semiaberto, até que, em 1987, ganhou liberdade condicional. Solto, lançou um livro contando sua versão. “Mea Culpa” tem 470 páginas, mas, hoje, Doca, aposentado, casado com uma amiga de infância, é econômico nas palavras. Às vésperas dos 80 anos, está ativo nas redes sociais, mas prefere não falar de Ângela. “Esse assunto me entristece.” (AG)
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