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Colunistas O Brasil e a Nau dos Insensatos: você já foi à Disney?

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Escrito em 1494 por Sebastian Brant, "A Nau dos Insensatos" é um relato ácido da sociedade de então. (Foto: Reprodução)

A Nau dos Insensatos é uma alegoria que descreve o mundo e seus habitantes como uma nau, cujos passageiros nauseabundos não sabem e nem se importam para onde estão indo.

Vejam: eles não se importam! Na verdade, a Nau dos Insensatos (Das Narrenschiff) foi o primeiro best-seller da história, fora a Bíblia. Escrito em 1494 por Sebastian Brant, é um relato ácido da sociedade de então.

Cada um dos 112 capítulos tem um endereço. Fala das falácias da Justiça, das injustiças da Igreja, a patifaria, os maus costumes, a vulgaridade dos nobres…

Brant era formado em Direito. Sabia das vicissitudes das leis. E do “sistema”. Dividido em 112 capítulos curtos, cada qual dedicado a um tipo de louco ou insensato, o livro proporciona uma leitura provocadora e divertida.

Por aqui, Brant teria um bom campo de análise. Insensatez não falta. Qualquer país civilizado do mundo passa por duas crises neste momento: a crise econômica decorrente da crise pandêmica. Só aqui no Brasil há uma terceira crise: a política.

Todos os dias, há uma vitimização na crise. Não fosse a crise política e teríamos mais facilidade no enfrentamento das outras duas.

Um ministro da Saúde sai porque o presidente lhe aporrinhava todos os dias e desobedecia às recomendações da OMS. O outro cai porque o presidente queria que ele rasgasse seu diploma de médico e saísse por aí aplicando cloroquina aos pacientes da covid-19.

Quem ajudou também a botar fogo da nau da insensatez foi o ex-juiz Sérgio Moro, que passou mais de ano concordando com o governo e, de repente, faz beicinho e sai. Pior: sai atirando no seu ex-amigo.

Se o presidente Bolsonaro tivesse concordado com o nome que Moro queria para a Polícia Federal (ou concordado com a exigência de Moro de que o anterior permanecesse), ele teria ficado no ministério.

Essa história de que Moro saiu para não manchar sua biografia é conversa fiada. Se é verdade que o ministro da Educação falou na tal reunião do dia 22 de abril que todos os ministros do STF deveriam ser presos e ele, Moro, não se levantou e pediu demissão na hora, então até mesmo prevaricou. E se é verdade que o presidente chamou dois governadores de estrume ou algo assim e Moro, ministro da Justiça, não se levantou na hora e pediu o boné, então também prevaricou, porque injuria é crime.

Enfim, o cruzeiro feito pela Nau dos Insensatos tem parada obrigatória no Brasil. Muita gente para embarcar. Junto com a Nau podemos trazer a Barca do Inferno, de Gil Vicente.

Comecei com Sebastian Brant e com ele termino, paradoxalmente com o que ele diz no início de seu best-seller A Nau dos Insensatos, que me parece relevante para que passemos a olhar de outro modo as crises brasileiras:

“Que seja de utilidade e sirva de salutar ensinamento, de estímulo à conquista da sabedoria, juízo e bons costumes, assim como à emenda e punição da insensatez, cegueira, desacerto e inépcia dos homens e mulheres de todas as condições.”

Ah: enquanto isso, o dólar está quase em R$ 6. As viagens à Disney e Maiame escassearão. Bom, sempre há a chance de pegar carona na Nau dos Insensatos!

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