Terça-feira, 13 de Abril de 2021

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Brasil “O coração também é afetado pelo coronavírus”, diz o médico Roberto Kalil

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Cerca de 7% das mortes pela covid- 19 são causadas por miocardite, o acometimento do coração pelo coronavírus. (Foto: Reprodução de vídeo)

Ele enfrentou os sintomas mais graves da covid-19 logo no começo da pandemia, quando ainda não havia protocolos para tratar a doença – “admito que me senti mal como nunca antes”. E explica que uma gama de medicações ajudou a curá-lo.

Depois de 10 dias internado na unidade de terapia semi-intensiva do Hospital Sírio-Libanês e alguns dias em casa, em São Paulo, Roberto Kalil, que dirige a ala de cardiologia da instituição, estava de volta ao jaleco, à máscara e ao tratamento de seus pacientes. “Vivo medicina 24 horas por dia, minha determinação é ser médico”, resume o diretor clínico do Incor (Instituto do Coração, em São Paulo), aproveitando para avisar que a doença vai muito além da crise respiratória ou da febre alta (nos casos mais graves, como o dele): “O coração é muito atingido pelo coronavírus, cerca de 7% das mortes pela covid- 19 são causadas por miocardite. O que é isso? Trata-se do acometimento do coração pelo coronavírus”.

Para o Kalil, que tem entre seus pacientes mais famosos políticos de todos os matizes, o Brasil está fazendo um bom trabalho no combate ao coronavírus. Esse trabalho mostrou, inclusive, o quão importante é o SUS, que na sua opinião, necessita de maiores investimentos. “Muita gente que não conhece o sistema fala mal do atendimento, mas a verdade é que ele salvou milhões de vidas nos últimos meses.”

Se estamos preparados para a segunda onda da covid? “Ainda estamos na primeira, e precisamos nos manter firmes no reforço dos cuidados básicos e na manutenção do distanciamento social.” A seguir, alguns trechos da entrevista com o cardiologista à colunista Sonia Racy, do jornal O Estado de S. Paulo.

1) Qual a sua percepção sobre a covid-19 neste momento?

As pessoas já falam em segunda onda, mas não saímos da primeira ainda. Estamos em uma fase de flexibilização, como todo mundo sabe, mas longe do fim da pandemia. Existem muitas pessoas infectadas, o número de mortes ainda é bastante alto. Então, todo cuidado tem de ser redobrado, com o uso de medidas protetivas: usar a máscara, lavar as mãos e manter o distanciamento social. O problema é que, com a flexibilização, as pessoas que estavam em casa começaram a sair.

2) Há algum tempo você disse que o SUS sairia mais forte dessa pandemia. Quais os efeitos do vírus no sistema?

O Sistema Único de Saúde foi responsável por salvar milhares de vidas. Ele atende mais de 100 milhões de pessoas, é muito bem estruturado. Claro que, quando o SUS foi criado, em 1988, a população era mais jovem, e a medicina não tinha a alta tecnologia que tem hoje. Agora, a população está mais idosa, e a medicina está mais cara. O SUS precisa de financiamento (está subfinanciado há décadas). O sistema necessita melhorias urgentes estruturais e valorização do seus profissionais. E isso custa dinheiro, simplesmente porque estamos tratando do maior sistema de saúde do mundo. Quero frisar que onde o SUS estava melhor aparelhado, tivemos menos mortes.

3) Acha que a fama de oferecer mau atendimento não condiz com a realidade?

Tenho certeza. Porque as catástrofes são muito mais comentadas do que as coisas boas. Isso faz parte, não é crítica nenhuma. Mas, o que aconteceu com a covid? As autoridades, a população, a mídia, todos viram o valor real do SUS na luta contra a pandemia.

4) E sobre a guerra das vacinas? É natural isso acontecer? No meio da pandemia, haver uma guerra política?

Eu não sou especialista nesse assunto, não sou imunologista, não sou infectologista nem sanitarista. O que sei sobre vacinas é o que a gente discute nos comitês dos hospitais e o que está na mídia. O que posso dizer é que a Anvisa é um órgão extremamente sério e responsável pela aprovação das vacinas ou de qualquer medicação. O Brasil tem vacinas que estão em fase final de testes. Qual é a melhor? Não sei. O que sei é que toda politização é ruim quando se trata de ciência. Mas no mundo inteiro foi assim. No mundo inteiro houve politização em relação ao novo coronavírus, em todos os aspectos.

5) Como cardiologista, o que você pode dizer dos efeitos da covid sobre o coração?

No começo, se achava que era uma síndrome respiratória que atingia somente os pulmões; hoje já há vários estudos mostrando que ela atinge diversos órgãos, incluindo o coração. Estudos publicados em outubro reunindo autópsias de vítimas da covid demonstram que, além da pneumonia e da insuficiência respiratória, quase 70% do coração dessas pessoas também foram comprometidos pelo vírus. Nos primeiros casos relatados, em Wuhan (epicentro da pandemia, na China), 7% das mortes foram causadas por miocardite, que é o acometimento do coração pelo vírus.

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