Terça-feira, 01 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 31 de agosto de 2026
Olga Benário Prestes foi presa em um imóvel no Cachambi, Zona Norte do Rio de Janeiro, junto ao marido, o líder comunista Luiz Carlos Prestes, em março de 1936, numa operação que mobilizou mais de 90 policiais. Imediatamente, o governo Getúlio Vargas deixou clara a sua vontade de deportar a ativista alemã de família judia para o país europeu, então governado pelo Partido Nazista.
Adolf Hitler pregava o ódio contra judeus e comunistas havia anos. Em 1936, o III Reich ainda não tinha dado início ao extermínio do povo judaico, mas a etnia sofria dura perseguição na Alemanha. Editadas no ano anterior, as Leis de Nuremberg haviam tirado diversos direitos dos cidadãos judeus. Vargas sabia disso. E de nada adiantou Olga afirmar que era esposa legítima de Prestes e estava grávida dele.
No dia 28 de agosto de 1936, há 90 anos, Getúlio assinou um decreto classificando Olga como um elemento “perigoso” para a ordem pública e a expulsou do Brasil, entregando a mulher de Prestes de bandeja para Hitler. A decisão selou o destino da militante comunista, assassinada em uma câmara de gás no campo de concentração de Ravensbruck com outras centenas de mulheres.
Olga Benário Prestes nasceu em Munique e entrou jovem para o movimento comunista na Alemanha, em um período conturbado conhecido como a República de Weimar. Grupos nazistas entravam em conflito com frentes comunistas, em uma disputa ferrenha pelo poder que levaria à ascensão de Hitler, nos anos 1930. Olga começou a namorar o também militante Otto Braun, e os dois se mudaram para Berlim, onde o casal organizou protestos e foi preso acusado de traição à pátria, em 1928.
Olga foi liberada, mas Otto seguiu encarcerado, então a ativista planejou e liderou um ataque à prisão de Moabit, conseguindo libertar o companheiro. Os dois fugiram para a União Soviética, onde Olga se destacou na Seção Juvenil da Internacional Comunista. A alemã recebeu treinamento militar, era muito inteligente e tinha disciplina. Falava várias línguas e mostrava determinação pela causa comunista.
Olga conheceu Luiz Carlos Prestes em 1931, quando ela se separou de Otto Braun e o brasileiro se mudou para Moscou a convite da Internacional Comunista. Prestes era respeitado na capital soviética por causa da Coluna Prestes, o movimento de oposição à República Velha que circulou pelo interior do Brasil liderado por tenentes e capitães do Exército, nos anos 1920.
Depois de ser aceito no Partido Comunista do Brasil (PCB), o militante apelidado de Cavaleiro da Esperança voltou ao seu país com a missão de dirigir uma revolução armada com o auxilio da Olga, designada para garantir a segurança dele. Os dois amantes se casaram na viagem ao Brasil, que levou meses e passou por vários países. Eles entraram no país com documentos falsos.
Quando chegaram, em abril de 1935, O líder comunista foi declarado presidente de honra da Aliança Nacional Libertadora (ANL), uma organização antifascista que se opunha à Ação Integralista Brasileira (AIB). Sempre na clandestinidade, Prestes e os aliados ainda estavam planejando a revolução quando, em novembro de 1935, militares de baixa patente tomaram um quartel no Rio Grande do Norte,
A ANL tentou expandir a revolta, mas o governo Vargas sufocou a mobilização, que ficou conhecida como a Intentona Comunista, e Prestes virou o homem mais procurado do país.
Ele e Olga passaram meses escondidos em diferentes endereços do Rio até que foram encontrados em um imóvel na Rua Honório, no Cachambi, no dia 5 de março de 1936. Mais de 90 policiais foram mobilizados na operação e, quando um deles bateu na porta do casal, por volta das 7h30, armado com uma pistola Luger, de fabricação alemã, Prestes estava de pijama e nem resistiu à prisão.
– Por que o STF autorizou expulsão de Olga? Desde o início, os jornais comunicavam a intenção de Vargas de expulsar a estrangeira, apesar de ela estar casada com um brasileiro e grávida dele (“se encontra em estado interessante há quatro meses”, informou o jornal O Globo na época). A defesa da mulher de Prestes levou ao Supremo Tribunal Federal (STF) um pedido de habeas corpus, mas o tribunal alegou que esse direito havia sido suspenso por decreto do próprio governo Vargas, devido à Intentona Comunista.
A expulsão foi oficializada em decreto de 28 de agosto de 1936. No documento, Vargas cita os nomes usados pela militante no Brasil e classifica a alemã como “elemento nocivo aos interesses do país e perigoso à ordem pública”. Deportada de navio em outubro, ela foi levada a uma prisão da Gestapo, onde, no dia 27 de novembro, deu à luz à menina Anita Leocádia Prestes. A bebê foi entregue para a vó quando fez 14 meses. Olga, então, foi enviada a um campo de concentração.
A alemã foi assassinada com outras centenas de mulheres na câmara de gás, no dia 23 de abril de 1942. Em 1945, quando foram revelados os horrores do Holocausto, O GLOBO publicou um trecho do depoimento de uma mulher que ficou presa com a Olga dizendo que “ela era a mais corajosa de todas nós em Ravensbrück. Nunca perdeu a fé e por isso foi massacrada pelos carrascos de Hitler”.
Em 1984, o jornalista Fernando Morais publicou o livro “Olga”, até hoje a biografia mais conhecida da ativista no Brasil. A obra ganhou enorme projeção depois que embasou o filme de mesmo nome, com direção de Jayme Monjardim e Camila Morgado no papel principal, lançado em 2004, quando foi visto por quase três milhões de pessoas em cinemas de todo o Brasil. As informações são do jornal O Globo.
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