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Colunistas O papel das alterações epigenéticas nas doenças metabólicas e o impacto na saúde cardiovascular

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No Brasil, mais de 60% dos adultos estão acima do peso e cerca de 30%. (Foto: Reprodução)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

A obesidade tem sido amplamente reconhecida como um dos maiores desafios globais de saúde pública, afetando milhões de pessoas e contribuindo para o desenvolvimento de graves comorbidades metabólicas, como diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doença cardiovascular e disfunção hepática. No entanto, estudos recentes têm demonstrado uma nova e importante peça no quebra-cabeças da obesidade: as alterações epigenéticas.

Alterações epigenéticas, como a metilação do DNA e modificações em histonas, atuam como reguladores dinâmicos do funcionamento genético sem alterar diretamente a sequência do DNA. Estes mecanismos são altamente influenciados pelo ambiente – incluindo alimentação, níveis de atividade física, hábitos de vida e exposição a fatores ambientais detrimentais, como poluentes e disruptores endócrinos. Essas mudanças podem moldar o metabolismo e a saúde de forma profunda, com impactos que, muitas vezes, se estendem por gerações.

Vamos explorar como essas descobertas podem ser relevantes não apenas para a regulação metabólica, mas também para a prevenção e manejo das doenças cardiovasculares.

A obesidade é resultado de um desequilíbrio crônico de energia causado por fatores como alimentação inadequada, falta de atividade física, aspectos genéticos e, mais recentemente reconhecido, influências epigenéticas. Esses fatores epigenéticos podem:

1. Aumentar a inflamação sistêmica: padrões alterados de metilação e modificação de histonas em moléculas reguladoras podem amplificar processos inflamatórios em tecidos-chave como o fígado e o tecido adiposo. Isso contribui para a resistência à insulina e promove aterosclerose.

2. Promover acúmulo de gordura visceral: mutações epigenéticas impactam genes envolvidos no armazenamento de lipídios e na regulação da sensibilidade à insulina, fatores diretamente ligados ao risco cardiovascular.

3. Reduzir a função mitocondrial: observou-se que alterações estruturais em genes epigeneticamente modulados diminuem a capacidade das mitocôndrias de metabolizar gorduras e carboidratos, promovendo ainda mais o acúmulo de gordura corporal e inflamação metabólica.

Esses processos não apenas pioram o quadro metabólico, mas também colocam os pacientes em risco elevado para infarto do miocárdio e outras doenças cardiometabólicas.

A boa notícia é que as alterações epigenéticas são, em grande parte, reversíveis com intervenções no estilo de vida. Pesquisas destacam que:

* Atividade física regular tem um impacto positivo nas marcas epigenéticas relacionadas ao metabolismo muscular e sensibilidade à insulina. Ela também reduz a inflamação sistêmica e melhora os índices cardiovasculares.

* Dieta equilibrada rica em nutrientes essenciais como folato, metionina, e vitaminas do complexo B pode influenciar positivamente a metilação do DNA, reduzindo o risco de obesidade e doenças cardíacas.

* Redução do estresse oxidativo: estudos mostram que estratégias como alimentação anti-inflamatória e controle do estresse por exercícios de mindfulness ajudam a equilibrar os marcadores epigenéticos e a proteger o sistema cardiovascular.

Um importante exemplo de intervenção benéfica é o exercício físico, que demonstrou alterar positivamente os padrões epigenéticos nos músculos esqueléticos, favorecendo a flexibilidade metabólica e reduzindo fatores associados à síndrome metabólica.

As doenças cardiovasculares têm vínculos profundos com alterações metabólicas. Resistência à insulina, acúmulo de gordura visceral e inflamação – modulados por mecanismos epigenéticos – são componentes críticos no desenvolvimento de condições como aterosclerose, hipertensão e insuficiência cardíaca.

Um aspecto especialmente preocupante é o efeito sanfona, comum em pacientes com obesidade que perdem e ganham peso repetidamente sem a integração de estratégias duradouras, como dieta saudável e exercício. Estudos demonstraram que o efeito sanfona está associado a mudanças permanentes no epigenoma, levando a maior risco metabólico e cardiovascular.

Além disso, nas últimas décadas, as evidências têm sugerido que a obesidade materna pode influenciar o epigenoma de futuras gerações, predispondo a descendência a fatores de risco cardiovascular desde o nascimento.

O avanço nas pesquisas epigenéticas abre novos caminhos para intervenções terapêuticas personalizadas e mais eficazes. Estudos estão explorando o uso de:

1. Epigenética como preditor de risco cardiovascular: perfis de metilação do DNA em tecidos acessíveis, como sangue periférico, já são usados para prever risco metabólico e podem ser expandidos como ferramentas preditivas cardiovasculares.

2. Fármacos “epi-drugs”: compostos que modulam metilases e desacetilases de histonas estão sendo desenvolvidos para combater os danos metabólicos da obesidade, potencialmente revertendo fatores de risco cardiovascular.

Como cardiologista, compreendo que a personalização do tratamento, considerando o perfil metabólico e epigenético de cada paciente, será parte fundamental do futuro da medicina cardiovascular. Ela nos levará a tratamentos mais precisos e preventivos para doenças metabólicas e cardíacas.

Em última análise, compreender a conexão entre a saúde metabólica, a epigenética e o coração é essencial para enfrentar a epidemia de obesidade e suas complicações cardiovasculares. As alterações epigenéticas funcionam como um elo dinâmico entre o ambiente e nosso organismo, e otimizar fatores como dieta, exercício e controle metabólico pode reverter muitos dos impactos negativos que ameaçam nossa saúde cardíaca.

  • Raphael Boesche Guimarães, cardiologista do Instituto de Cardiologia do RS

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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