Sexta-feira, 15 de maio de 2026
Por Edson Bündchen | 14 de maio de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Em 1914, Henry Ford tomou uma decisão que contrariava a ortodoxia empresarial de seu tempo: dobrou o salário de seus operários. Mais do que um gesto filantrópico, foi uma aposta estratégica. Ao pagar melhor, Ford reduziu a rotatividade, aumentou a produtividade e, sobretudo, ajudou a criar consumidores capazes de comprar os carros que produzia, essencial para a expansão de seu negócio.
Mais de um século depois, a ascensão da inteligência artificial recoloca, sob nova perspectiva a dúvida sobre quem sustentará a demanda em uma economia cada vez mais automatizada?
Um estudo recente de economistas americanos descreve o risco de uma “armadilha da automação”. A lógica é simples, mas preocupante. Ao substituir trabalhadores por sistemas de IA, empresas reduzem custos e ganham eficiência. Mas também eliminam renda, afetando diretamente o consumo. Em escala, esse movimento pode enfraquecer o próprio mercado que sustenta as receitas empresariais.
O fenômeno não decorre por algum erro de gestão. Ao contrário: trata-se de decisões perfeitamente racionais, tomadas sob pressão competitiva. Se uma empresa automatiza, suas rivais tendem a fazer o mesmo. O problema é que o resultado coletivo pode ser indesejável, ainda que cada decisão individual faça sentido.
A lógica que orientou Henry Ford, salários como base de um mercado consumidor robusto, parece colidir com a lógica contemporânea da automação intensiva, na qual o trabalho humano deixa de ser peça central do processo produtivo. Estamos diante de um paradoxo da mais alta relevância.
Durante o século XX, produtividade e emprego caminharam, com tensões, mas de forma relativamente complementar. Novas tecnologias destruíam ocupações, mas também criavam outras. O crescimento econômico ampliava tanto a capacidade de produzir quanto a de consumir.
A inteligência artificial, no entanto, pode alterar esse equilíbrio. Ao automatizar não apenas tarefas manuais, mas também atividades cognitivas, ela amplia a possibilidade de crescimento econômico com menor geração de renda distribuída. Em outras palavras: mais produção, menos gente participando diretamente dos ganhos. O risco, nesse processo, reside na falta de compradores, não na escassez de bens.
Isso não significa que um colapso seja inevitável. A história econômica é rica em previsões alarmistas que não se concretizaram. Novos setores podem surgir, políticas públicas podem mitigar efeitos adversos, e a própria dinâmica de mercado pode se ajustar. Ainda assim, ignorar o problema seria um erro.
O mérito do debate atual está menos em prever um desfecho catastrófico e mais em evidenciar uma tensão estrutural entre a dissociação crescente e a eficiência produtiva e geração de renda.
Ford entendeu, intuitivamente, que trabalhadores não eram apenas um custo a ser minimizado, mas parte essencial da engrenagem de demanda. A economia contemporânea, guiada por métricas de eficiência de curto prazo e pela lógica da concorrência global, nem sempre internaliza esse mesmo raciocínio.
A questão, portanto, é muito mais institucional do que tecnológica. Como alinhar incentivos privados com a sustentabilidade do sistema econômico como um todo? Como garantir que os ganhos de produtividade continuem a se traduzir em capacidade de consumo?
Não há respostas simples. Propostas como redistribuição de renda, novas formas de participação nos lucros ou tributação da automação estão em debate, mas longe de consenso. O que parece claro é que a transição exigirá mais do que fé na autorregulação dos mercados.
O século XX foi marcado pelo desafio de produzir em massa. O século XXI talvez seja definido por um desafio mais sutil, porém igualmente decisivo: preservar ou reinventar os mecanismos que sustentam a demanda em uma economia onde o trabalho humano pode perder centralidade.
Ao dobrar salários, Henry Ford ajudou a resolver, à sua maneira, o problema de quem compraria seus carros. A inteligência artificial nos obriga a revisitar essa mesma pergunta, mas agora em escala global. Ignorá-la pode ser o verdadeiro risco.
(Instagram: @edsonbundchen)
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
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