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Por Redação O Sul | 7 de fevereiro de 2021
As vacinas concentram a atenção mundial, mas, sem tanto alarde, o tratamento da Covid-19 vem avançando de forma radical. Um ano após o início da pandemia, para quem tem acesso a atendimento médico rápido, a chance de sobreviver é grande, asseguram especialistas. À frente dos avanços estão medicamentos baratos, procedimentos terapêuticos simples e, sobretudo, maior conhecimento sobre como tratar os pacientes.
Os médicos aprenderam a modular o uso de corticoides e anticoagulantes, a interpretar exames em busca de marcadores de inflamação. Descobriram também como usar melhor o oxigênio, tão em falta em Manaus, e a ventilar seus pacientes.
Mas o que tem feito enorme diferença no tratamento é o atendimento e o acompanhamento diário pelo médico logo após o surgimento dos sintomas. A pneumologista e pesquisadora da Fiocruz Margareth Dalcolmo, diz que é preciso falar diariamente com o paciente, mesmo aquele com sintomas leves.
“Na Covid-19 a saturação de oxigênio pode despencar e a pessoa não percebe. Às vezes, são sinais sutis, como o esforço da musculatura do pescoço e da face, que o paciente nem nota, mas que dizem ao médico que aquela pessoa está com dificuldades para respirar. Nunca atendemos tanta gente com a mesma doença e sinais tão diferentes, como distúrbios de pele, intestino e articulares. Mas a atenção diária ao paciente salva vidas”, afirma Dalcolmo.
A mesma opinião tem um dos primeiros médicos a atender casos de Covid-19 no Brasil, o pneumologista Carlos Alberto de Barros Franco, da Academia Nacional de Medicina. Ele garante que há condições de conduzir a maioria dos casos a um bom desfecho.
“A ideia equivocada de que a Covid-19 não tem tratamento é resultado do fato de que o coronavírus pega muita gente e há muitas pessoas com comorbidades sendo infectadas ao mesmo tempo numa população grande num país como o Brasil, sem estrutura adequada”, afirma o médico.
Barros Franco diz que a doença segue dividida em três fases (leve, moderada e grave), mas a compreensão e o tratamento delas mudaram. A primeira, na qual ficam 80% dos infectados, é a dos sintomas leves (febre, dor de garganta, tosse, congestão nasal, por exemplo).
Hospitalização
Os especialistas frisam que o doente de Covid-19 não deve ficar em casa, ao contrário do que se imaginava quando havia menos conhecimento. O chefe da UTI do Hospital Copa Star, Fabio Miranda, lembra que antes muitos pacientes já chegavam com a doença avançada, por vezes, irreversível.
“Hoje pedimos para a pessoa infectada medir quatro vezes por dia a saturação de oxigênio com um oxímetro de dedo. Se cair abaixo de 92% é para ir para o hospital. O contato diário com o paciente, mesmo que pelo telefone, faz com que possamos detectar sinais de agravamento e, quase sempre, evitar o pior”, frisa Miranda. Os especialistas alertam com ênfase que não existem tratamentos profiláticos ou preventivos.
“Seria maravilhoso, mas não existem. Esqueçam cloroquina, hidroxicloroquina, zinco, vitamina D, ivermectina, anitta, nada disso provou funcionar. Mas temos outros recursos e ainda boas perspectivas. O fundamental é que o paciente tenha acompanhamento diário, mesmo que pelo telefone. Isso mudou e fez enorme diferença”, salienta Barros Franco.
Se os kits Covid não passam de recurso de médicos que não sabem como tratar pacientes, a ciência mostra que cuidados simples dão bons resultados. Miranda diz que a hidratação na Covid-19 se revelou extremamente importante. Água faz mais pelo paciente do que pílulas porque a Covid-19 desidrata perigosamente, sem que a pessoa perceba.
Uma esperança nessa fase da doença é o soro hiperimune de cavalos desenvolvido por cientistas com o apoio da Faperj, já pronto para testes em seres humanos. Se usado nos primeiros dias dos sintomas, o soro hiperimune poderia evitar o agravamento, a exemplo do que acontece com os soros contra a raiva, o tétano e as picadas de cobra.