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Geral O tráfico internacional de drogas tomou conta dos portos brasileiros

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Em operação conjunta com a Receita Federal, a Polícia Federal apreendeu cerca de 892 kg de cocaína em um dos terminais do Porto de Santos, em fevereiro último. (Foto: Divulgação)

O Porto de Santos bateu no ano passado mais um recorde. Um volume transportado de 162,4 milhões de toneladas de cargas. A movimentação representou US$ 174,6 bilhões. Soja, milho, suco de laranja, carnes, celulose estão entre as cargas que passam em maior volume nos cargueiros que partem todos os dias do porto. Nos primeiros meses de 2023, os números continuam impressionando. Quase 30% de todas as trocas comerciais do Brasil passam por Santos. Mas o maior porto do Brasil figura também há anos em outro tipo de estatística: o do tráfico internacional de cocaína.

Entre 2016 e 2022, a Receita Federal apreendeu 126 toneladas da droga em contêineres ou escondidas em partes dos navios que estavam prestes a zarpar. Este ano, até junho foram 6 toneladas. Quase sempre, o destino seria a Europa. Segundo autoridades europeias, Santos aparece como segundo maior emissor do mundo de cocaína para o velho continente.

Nas últimas semanas, o jornal Valor Econômico reuniu dados e relatos da Polícia Federal, da Receita Federal, do Ministério Público, da Secretaria de Segurança de São Paulo e de funcionários da União Europeia, que ajudam a montar um retrato atualizado sobre como o crime tem explorado estruturas portuárias do país – sobretudo em Santos.

O envolvimento de traficantes locais com comércio com a Europa contribuiu, nos últimos anos, para mudar a paisagem da criminalidade da Baixada Santista, segundo a promotores de Justiça.

Desde o fim de julho, o governo de São Paulo mantém uma operação especial na Baixada. A ação teve início após um policial ter sido assassinato em serviço na região. E, embora o foco não seja o combate ao narcotráfico internacional em Santos, é esse o principal pano de fundo que os policiais que atuam na operação têm de lidar.

A exploração do porto de Santos, assim como de outros do país, por narcotraficantes é um problema sem solução clara e que expõe as limitações de polícias, agentes aduaneiros e outras autoridades mundo afora. Principais portos da Europa também têm se mostrado altamente porosos ao crime.

Apesar de variações constantes, o modus operandi, costuma ser disfarçar o ilícito no lícito.

Em setembro, traficantes acondicionaram 772 kg de cocaína em um carregamento de 640 sacas de café que sairia de Santos e que tinha como destino o porto belga de Antuérpia, o segundo maior da Europa. Um cão farejador e o uso de scanner ajudaram servidores da Receita e da PF na apreensão.

Em fevereiro, o disfarce foi um contêiner com sacas de amendoim que seriam exportados para a Polônia. O cargueiro tinha baldeação prevista em Antuérpia. No meio do amendoim, tabletes com 887 kg de cocaína. Em março, em um contêiner de 40 pés carregado com proteína de soja, traficantes esconderam embalagens com, ao todo, 670 kg de cocaína. Destino: Antuérpia. Novamente, cachorro e scanner ajudaram os agentes.

Autoridades europeias dizem que um grama de pó custa hoje algo entre 40 (cerca de R$ 215) e 70 (R$ 375). Somente os lotes misturados à soja brasileira teriam movimentado algo entre 27 milhões e 47 milhões.

“O Brasil é um país de trânsito [de droga], um país de envio, o que, em si, é um problema bastante grande tanto para o Brasil quanto para nós porque os narcotraficantes são parasitas das infraestruturas [de comércio] que existem entre a América do Sul e da América Latina em geral e Europa”, disse Laurent Laniel, principal analista científico do Centro de Monitoramento Europeu de Drogas e da Dependência das Drogas (EMCDDA na sigla em inglês), órgão da União Europeia sediado em Lisboa que acompanha o mercado de entorpecentes.

“O porto de Santos é um dos grandes portos da América Latina e tem um comércio fenomenal com a Europa e os traficantes aproveitam este número fantástico de contêineres que saem daí para Antuérpia, Roterdã, Valência e outros portos europeus”. São cerca de 10 mil contêineres entrando e saindo diariamente de Santos.

Santos não é a única opção dos traficantes brasileiros. No ano passado, segundo a Receita, foram apreendidas no porto de Barcarena (PA) 2,7 toneladas; em Itajaí (SC), 1,7 tonelada; e em Paranaguá (PR), 1,1 tonelada. Mas Santos – a julgar pelas apreensões – aparece como opção preferencial.

Em 2021, de um total de 36,3 toneladas bloqueadas por Receita e PF em portos do país, 16,8 toneladas estavam em Santos. Em 2022, das 24 toneladas, 16,4 toneladas estavam em Santos. E neste ano, entre janeiro a junho, de um total de 8,6 toneladas, 5,8 toneladas estavam no porto do Santos.

A PF (Polícia Federal) tem trabalhado em operações conjuntas em portos e em treinamento com a polícia da Bélgica e de outros europeus. Em março, numa vitória do esforço conjunto, foi desarticulada uma organização que usava os portos do Rio Grande e de Itajaí para enviar pó para a Europa. Investigações apontaram que o grupo transacionou 17 toneladas da droga. As informações são do jornal Valor Econômico.

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