Sexta-feira, 03 de Julho de 2020

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Mundo O Vaticano abriu os arquivos sobre o papa Pio 12, acusado de se omitir sobre a perseguição aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial

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Pontífice nascido na Itália comandou a Igreja de 1939 a 1958. (Foto: Reprodução)

Historiadores começaram nessa segunda-feira a investigar os arquivos do pontificado do papa Pio 12 (1939-1958), acusado de omissão durante o extermínio de 6 milhões de judeus pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial (1938-1945). As autorizações para acessar uma das pequenas salas de estudo dos arquivos do Vaticano já foram distribuídas.

Mais de 200 pesquisadores se inscreveram para esse evento histórico, ansiosos para examinar milhões de documentos. O jovem pesquisador alemão Sascha Hinkel, um dos selecionados, comemorou “uma excelente oportunidade de estar entre os primeiros a ver os documentos”.

Membro da equipe de assistentes do professor de história religiosa Hubert Wolf, especialista em Pio 12 e na era nazista, ele calcula cinco anos de trabalho para tentar encontrar respostas para suas perguntas. Mas “os arquivos do pontificado ocuparão os historiadores por pelo menos 20 anos”, prevê.

“Para milhões de pessoas, católicas e judias, esses arquivos são de enorme interesse humanitário”, explica Suzanne Brown-Fleming, diretora de programas internacionais do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, que inicia nesta segunda uma exploração de três meses nos documentos. Ao decidir, há um ano, abrir os cobiçados arquivos, o papa Francisco afirmou que “a Igreja não tem medo da história”.

A transparência foi simbolizada alguns dias atrás com câmeras no bunker dos arquivos do Vaticano —até recentemente chamados de “arquivos secretos”—, que abrigam 85 quilômetros de prateleiras, incluindo uma seção dedicada ao pontificado de Pio 12, protegida por grades. Na ocasião, o responsável pelos arquivos, monsenhor Sergio Pagano, exibiu documentos que cheiravam a pó, como desenhos e cartas de crianças alemãs agradecendo ao papa em 1948 pelos presentes dados pela primeira comunhão.

Também foram abertos pela primeira vez os arquivos do longo período pós-guerra, principalmente os relativos à censura de escritores e padres próximos do comunismo. Para o período do Holocausto, o Vaticano publicou o que considerava essencial há 40 anos, em 11 volumes. Mas faltam peças, principalmente as respostas do papa a seus correspondentes e visitantes.

Historiadores de todo o mundo tentarão entender melhor a personalidade desse pontífice italiano que falava alemão – ele foi núncio apostólico na Alemanha por 12 anos—, confinado atrás dos muros do Vaticano durante a Segunda Guerra Mundial pelos nazistas e depois pelos fascistas italianos.

Conivência

Considerado culpado por seus detratores por seu silêncio público sobre o extermínio dos judeus nos campos de concentração, mas apoiado por seus admiradores que afirmam que a Igreja escondeu pelo menos 4 mil judeus romanos e protegeu os católicos europeus, Pio 12 – nascido na Itália como Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli – terá suas posições escrutinadas.

O papa, um aristocrata romano, “nunca levantou a voz, e duvido que os documentos possam contradizer isso”, afirma a historiadora italiana Ana Foa, referindo-se à atitude “muito diplomática e tradicional” com os alemães. “Durante a guerra, ele pensava que seu dever era salvar vidas, mas não condenar ideologias”, resume a professora aposentada. “Pio 12 era um produto de seu tempo, não era particularmente antijudeu, mas não negou a história antijudaica da Igreja.”

“No pós-guerra, podia ter capitalizado a ação de esconder judeus em instituições católicas, mas não o fez. Ele não entendeu, era um homem do passado”, analisa. Por ocasião da abertura dos arquivos, o Vaticano evita falar sobre o processo de beatificação de Pio 12, atualmente parado. Um primeiro passo, em 2009, realizado por Bento 16, causou protestos de organizações judaicas.

As sete diferentes seções de arquivos da Santa Sé que conservam documentos sobre Pio 12 poderão acomodar cem pesquisadores por dia, em meio aos velhos fascículos, porque apenas parte dos arquivos está digitalizada.

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