Quinta-feira, 16 de abril de 2026
Por Redação O Sul | 31 de março de 2026
Nenhuma doença é tão visível quanto a obesidade. Assim como é evidente quem tem sobrepeso. Porém, após o fim da patente da semaglutida no Brasil e a previsível expansão do uso dessa droga (princípio ativo das canetas emagrecedoras) surgem dúvidas sobre quem deve ou não fazer uso desses medicamentos, decisão diretamente associada à magnitude do peso em excesso e aos riscos para a saúde trazidos por ele. E ainda sobre a forma correta de tomar esses remédios.
É praticamente consenso entre endocrinologistas e outros especialistas que as canetas são o tratamento mais eficiente para a obesidade, com baixo risco e muitos benefícios. Já o uso no sobrepeso segue em discussão. Pois, a fronteira entre sobrepeso e obesidade é mais nebulosa do que parece.
Os médicos preferem usar a expressão pessoa com obesidade e não pessoa gorda por que o adjetivo vem mergulhado no preconceito. E em um país como o Brasil com 62,6% da população acima do peso, segundo o Vigitel/Ministério da Saúde, não é difícil encontrar quem se enquadre nessa situação, que é a regra e não a exceção.
Para início de conversa, qualquer pessoa com Índice de Massa Corporal (IMC), que mede a proporção entre altura e peso, entre 25 e 29,9 tem sobrepeso. Já as pessoas com obesidade são aquelas com IMC superior a 30. Estas constituem 25,7% da população brasileira adulta.
A obesidade é classificada em quatro graus, que aumentam em função do peso e das demais doenças a ele associadas. Mas todos os quatro graus têm risco para a saúde e recomendação para uso de canetas, sublinha João Salles, o presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Já a cirurgia bariátrica costuma ser indicada para pessoas com IMC superior a 40.
Raro é o dia em que não chega no consultório de Salles alguém em busca de orientação para usar as canetas emagrecedoras. Ele afirma que o critério de inclusão para tratamento com essa classe de drogas é amplo. Mas suscita discussões entre os médicos no que diz respeito ao sobrepeso. O que é consenso é a exclusão do uso meramente estético, pois as canetas são remédios e nenhum medicamento é isento de risco.
A recomendação oficial no Brasil para tratamento com canetas inclui pessoas com obesidade (com ou sem comorbidades) e aquelas com IMC acima de 27 e alguma comorbidade e isso abrange, por exemplo, dor articular, lombar, depressão, apneia, além dos distúrbios cardiovasculares e metabólicos.
“Essas são as pessoas que serão mais beneficiadas porque tratarão a obesidade e uma outra doença. É como acertar dois alvos de uma vez. Gente que luta contra a diabetes, doença hepática gordurosa não alcoólica, insuficiência cardíaca, por exemplo. Todas doenças de difícil tratamento”, enfatiza o endocrinologista Roberto Zagury, membro do Departamento de Diabetes, Exercício e Esporte da SBD.
A maioria dos médicos considera as canetas seguras e eficientes para as pessoas com obesidade. Essas drogas receberam ano passado a chancela da Organização Mundial de Saúde e têm o sinal verde da Anvisa, mediante receita médica, para o tratamento da obesidade.
A discussão a respeito do sobrepeso está relacionada, por exemplo, à forma como se avalia o risco do acúmulo de gordura. Porque, enfatiza Salles, o IMC não mede a distribuição de gordura. E isso faz toda diferença para a medicina. Pessoas com muita massa muscular e baixa proporção de gordura podem ter IMC elevado, mas são saudáveis. Já pessoas de peso normal ou até magras, com pernas finas, mas barriga grande apresentam alto risco de comorbidades, a despeito do IMC baixo.
O magro barrigudo concentra gordura no abdômen. E isso é muito ruim porque a gordura abdominal afeta os órgãos internos, causa inflamação crônica e deflagra uma série de doenças. Uma delas é esteatose hepática, a gordura no fígado, associada a distúrbios metabólicos graves, destaca o clínico geral e professor de hepatologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) João Marcello de Araújo Neto. Ele considera as drogas da classe da semaglutida como um enorme avanço porque emagrecer, frisa, não depende de força de vontade.
Araújo, especialista no fígado, observa que a distribuição da gordura abdominal é elemento para avaliar se uma pessoa é elegível para usar semaglutida. De forma simples, ela é medida pela circunferência da cintura.
O risco moderado inclui comorbidades, em especial as cardiovasculares. Estão nele os homens com circunferência acima de 94cm, e as mulheres, de 80cm. Homens com mais de 102 cm de cintura e mulheres de 88cm correm risco muito aumentado.
Mas a discussão vai além da concentração de gordura abdominal e do que está na bula das canetas. Salles diz que uma pessoa que começa a engordar significativamente, mas ainda não desenvolveu comorbidades, pode ser elegível para evitar problemas futuros, desde que existam elementos clínicos para avaliar o risco.
Mas o endocrinologista Marcio Mancini, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo, alerta que gente de peso normal e sem nenhuma comorbidade, magra ou com baixo sobrepeso deve se manter longe das canetas.
“Nunca foram estudadas nesse grupo. Não se sabe o que pode acontecer com o metabolismo dessas pessoas. Que efeitos podem aparecer. As canetas são seguras para o grupo em que foram estudadas. Porém, parte significativa das pessoas que usam essas drogas ou querem usar é movida apenas pela estética. Isso pode lhes custar mais caro do que o preço da caneta”, salienta Mancini.
Salles acrescenta que nem considera orientar para o uso estético, que os médicos chamam de recreativo, porque ele simplesmente não é recomendável.
“São drogas para tratar uma doença, distúrbios metabólicos. São remédios desenvolvidos para certas condições. Não são meros procedimentos estéticos. Isso sem falar nos manipulados, aplicações em clínicas. Isso é muito perigoso, receita para problema de saúde”, ressalta o presidente da SBD.
A endocrinologista Priscila Sousa diz que muita gente usa a caneta movida pelo “desejo social de emagrecer”. “A sociedade cobra das pessoas aparência jovial, saudável. Mas o ganho de peso é esperado à medida que se envelhece, muda a composição corporal. Muita gente quer voltar a ter o corpo dos 30, mesmo estando com 60 e ainda dentro de um peso aceitável. As canetas parecem a solução. Mas essas drogas não foram desenvolvidas nem estudadas para isso. É realmente um risco e, por isso, não prescrevemos. Elas são excelentes, mas não nesses casos”, observa Sousa. As informações são do jornal O Globo.
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