Segunda-feira, 03 de Agosto de 2020

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Brasil Os brasileiros têm cada vez mais procurado clubes de tiro para conseguir um revólver ou uma pistola

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Em um ano, flagrantes de irregularidades passaram de nove para 23. (Foto: Divulgação)

“A gente está com uma promoção bem legal de Certificado de Registro. Por R$ 1.200, montamos tudo. Estão incluídos todos os laudos, preço da filiação ao clube e taxas. Em até 30 dias, o CR é enviado ao e-mail”. Parece a negociação de um pacote de TV a cabo, mas é uma oferta do registro que viabiliza a posse de uma arma no Brasil. Impulsionados pela flexibilização nas regras, os brasileiros têm cada vez mais procurado clubes de tiro para conseguir um revólver ou uma pistola como colecionador, atirador ou caçador. A busca, nem sempre, segue o rito da lei.

O número de clubes de tiro autuados por irregularidades pelo Exército durante a Operação Impacto, cuja finalidade é fiscalizar eventos nesses espaços em âmbito nacional, passou de nove, em 2018, para 23 este ano. A apreensão de armas de fogo nesses locais dobrou: foram 122, no ano passado, frente a 241, em 2019. Os dados reforçam a percepção de especialistas em segurança pública de que, embora o controle do Exército esteja crescendo, há clubes e estandes de tiro facilitando o acesso ao registro. Na outra ponta, cidadãos que nunca antes pegaram numa arma se passam por atiradores desportivos para ter acesso ao equipamento com mais facilidade.

A falta de controle de presença e da relação de associados, registros vencidos e falta de relatório de atividades em competições foram os principais problemas nas últimas operações do Exército. Pernambuco, Rio Grande do Norte, Paraíba e Alagoas são os estados com o maior número de irregularidades.

Há dois caminhos para se obter uma arma no Brasil: via Polícia Federal (PF) ou pelo Exército. A PF concede o chamado Certificado de Registro de Arma de Fogo (Craf), com validade de dez anos, que autoriza o proprietário a mantê-la em casa ou em estabelecimento comercial, com o único objetivo da autodefesa. Já o Exército emite o Certificado de Registro (CR) a um grupo restrito, conhecido pela sigla CAC: caçadores, atiradores desportivos e colecionadores. O documento é válido por dez anos e permite ao atleta levar a arma carregada de casa até o local de treinamento ao qual é filiado e a competições.

Acesso facilitado

Nos dois órgãos, as exigências para conseguir uma arma são parecidas: ter ficha limpa, mais de 25 anos e passar por testes de aptidão psicológica e capacidade técnica. Até junho passado, o que diferenciava os dois processos era que, na PF, havia a exigência de uma justificativa de “efetiva necessidade” – requisito previsto no Estatuto do Desarmamento, derrubado por decreto recente do governo federal. A liberação do certificado, portanto, dependia do crivo do delegado responsável. Apesar de mais rápido e menos burocrático, era menos garantido tirar a licença pela PF do que pelo Exército. Por isso, o cidadão que queria apenas ter uma arma, mesmo não sendo caçador, atirador ou colecionador, procurava o Exército.

“A maioria das pessoas que tira (o CR) é para conseguir ter uma arma, não para ser atirador. Isso acontece porque a PF negava com muita frequência (o direito à posse e ao porte)”, diz Rafael Souza, da loja Top Arms.

A facilidade para se obter uma arma via Exército é reforçada pelos dados do 13º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado no mês passado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Enquanto em 2017 foram registradas 95.745 novas armas via Exército, em 2018 o número saltou para 149.042, alta de 55%. Os equipamentos liberados pelo órgão representaram 75% de todas as novas armas em circulação no país em 2018. O número de atiradores desportivos praticamente dobrou no período: saiu de 26.150 para 49.671. Os clubes de tiros cresceram 61%, de 91 para 147.

Segundo um despachante, clubes de tiros, especialistas e um promotor ouvidos pelo GLOBO, além dos pacotes com desconto, promoções para mulheres e agilidade na retirada, as irregularidades mais comuns que facilitam o acesso ao CR são as falsificações, como a de certidão de antecedentes criminais, laudos psicológicos e de capacidade técnica.

Na semana passada, O Globo visitou um clube de tiro em São Paulo. Após ser informado de que a atividade é restrita a atiradores e filiados do clube, recebeu convite para atirar “só para matar a vontade”. Por R$ 48, foram disparados 20 tiros. O instrutor ofereceu a filiação ao local por R$ 500 ao ano, explicou que, por R$ 1.700, seria possível tirar o CR. E nos deu como lembrança os alvos perfurados pelos tiros: “Só não posta nas redes sociais, porque vocês não poderiam ter atirado”, recomendou.

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