Domingo, 14 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 8 de dezembro de 2015
Linder Anej caminhava pela maré baixa para transportar entulho de construção até a costa e reconstruir o quebra-mar improvisado em frente ao seu lar. A barreira temporária não é capaz de conter o mar que regularmente inunda os barracos e ruas enlameadas com água salgada e esgoto, mas todo dia, exceto aos domingos, Anej se junta a um grupo de homens e meninos para trazer o entulho de volta ao local. “É loucura, eu sei”, disse Anej, 30 anos, que vive com sua família de 13 pessoas, que inclui seus pais, irmãos e filhos, em uma casa de quatro cômodos. “Mas é a única opção que temos.” Parado perto de sua casa à beira de uma favela densamente povoada, ele disse, “eu sinto como se vivêssemos debaixo d’água”.
Longe dali, nos salões de conferência de hotéis em Paris (França), Londres (Inglaterra), Nova York e Washington (EUA), Tony A. deBrum, o ministro das Relações Exteriores das Ilhas Marshall, conta as histórias de homens como Anej para transmitir aos mais poderosos autores de políticas o risco enfrentado por seu país insular do Pacífico com a elevação dos mares – e para moldar os termos legais e financeiros do grande acordo das Nações Unidas a respeito da mudança climática que agora está sendo negociado em Paris.
O foco de deBrum está voltado às carteiras do Ocidente – uma indenização pelas “perdas e danos”, no jargão dos negociadores, que o poderio industrial dos países ricos causaram ao meio ambiente global. As Ilhas Marshall contam com um trunfo importante: segundo um acordo de 1986, os cerca de 70 mil habitantes do país, devido a seus antigos laços militares com Washington, são livres para emigrar para os Estados Unidos, um passe que se tornará mais atraente à medida que o mar se elevar nas costas das ilhas.
O debate em torno de perdas e danos tem sido intenso porque os termos finais do acordo de Paris poderiam exigir que os países desenvolvidos, acima de todos os Estados Unidos, doem bilhões de dólares a países vulneráveis como as Ilhas Marshall. “Não faz sentido para nós ir a Paris e voltar com algo que diga: ‘Daqui alguns anos, seu país estará sob as águas’”, disse deBrum. “Nós vemos os danos ocorrendo agora. Nós estamos tentando conter o mar.”
Chamando atenção.
No mundo dos negociadores da questão climática, deBrum conseguiu avanços. Ele conseguiu participar das reuniões do Fórum das Grandes Economias, grupo de 17 potências mundiais convocado pelo secretário de Estado americano, John Kerry, para discussão das políticas de energia antes da cúpula em Paris. Ele pressionou por reuniões obrigatórias a cada cinco anos após a cúpula em Paris para aumentar o rigor das políticas internacionais de reduções de carbono. DeBrum nota que Izabella Teixeira, ministra do Meio Ambiente do Brasil, um dos maiores poluidores de carbono do mundo, citou o plano das Ilhas Marshall para a redução de carbono como uma influência no plano ambicioso do Brasil de fazer o mesmo.
Para deBrum, o aquecimento do planeta não é abstrato. A projeção é de que o nível dos mares se eleve entre 30 centímetros e 1,20 metro por todo o mundo até o final do século, segundo conclusão de vários estudos científicos internacionais importantes.
Em bairros como o de Anej, após as marés repletas de esgoto invadirem suas casas, febre e disenteria aparecem em seguida. Em outras ilhas, as inundações de água salgada penetraram e salinizaram as reservas de água doce subterrâneas.
Entre os termos mais contenciosos sendo negociados em Paris está um compromisso, apresentado durante a cúpula do clima de 2009 em Copenhague (Dinamarca) pela então secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, de que os países ricos mobilizariam anualmente 100 bilhões de dólares até 2020 para ajudar os países pobres a controlarem suas emissões de gases do efeito estufa e se adaptarem aos efeitos punitivos da mudança climática. Os países já criaram um “Fundo Verde para o Clima” para receber as contribuições. Obama se comprometeu a fazer uma doação inicial americana de 3 bilhões de dólares. “Nós estaremos entre os primeiros 15 países na fila”, disse deBrum. Ele prevê a elevação das cidades das ilhas em até dois metros e a construção de novos sistemas de drenagem resistentes. “Isso poderia nos garantir pelo menos 20 anos”, exaltou.
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