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Brasil Pela primeira vez, uma pesquisa do Banco Mundial mostrou o que leva mais de 23% dos jovens brasileiros, de 15 a 29 anos, a abandonar a escola e o trabalho

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No Brasil, 23,5% dos jovens entre 15 e 29 anos nem estudam e nem trabalham. (Foto: Reprodução)

Pela primeira vez, uma pesquisa do Banco Mundial mostrou o que leva 23,5 dos jovens brasileiros de 15 a 29 anos a abandonar a escola e o trabalho. Intitulada “Se já é difícil, imagina para mim – uma perspectiva qualitativa sobre os jovens que nem estudam, nem trabalham no Brasil”, o estudo lista três barreiras que limitam a ascensão educacional e no trabalho: desmotivação pessoal, principalmente das meninas que são levadas a acreditar que devem ficar apenas no papel de dona de casa e mãe, percepção de incapacidade, apesar de quererem trabalhar ou estudar; e a falta de políticas públicas de transporte e creches e de oportunidades no mercado.

O estudo foi apresentado no encontro “Juventudes e gênero”, promovido pelo Banco Mundial, juntamente com o Instituto Promundo, a Fundação Roberto Marinho e Canal Futura, no Rio de Janeiro. “Eles não se veem como geradores de renda, sentem-se incapazes. Por isso é importante mostrar modelos positivas de jovens que conseguiram, para mostrar que é possível”, afirmou Miriam Müller, autora do estudo com Ana Luiza Machado.

A sensação de incapacidade é mais presente nas meninas diante da pressão social para mantê-las dentro da casa, principalmente as que já formaram família e têm filhos.

“Elas sofrem mais com as sanções sociais quando tentam superar essas barreiras. Há estigmatização na comunidade quando saem para trabalhar. Precisam negociar com os parceiros que nem sempre aceitam que elas trabalhem”, declarou Miriam.

Há barreiras até fáceis de derrubar. Jovens relataram que falta conhecimento para fazer um currículo ou como se comportar em entrevistas de emprego. Para Miriam, falta uma espécie de mentoria para esses jovens, para os quais falta conhecimento de vivência no mercado. O estudo também analisou os jovens que conseguiram vencer esses obstáculos:

“O professor tem papel fundamental para que o jovem se sinta capaz e que mostre que as coisas são difíceis, mas possíveis de acontecer. O professor ruim também pode ter efeito inverso de desconectar o aluno da escola, como vimos em algumas entrevistas.”

Geração nem-nem

No Brasil, 23,5% dos jovens entre 15 e 29 anos nem estudam e nem trabalham. As mulheres lideram o grupo da geração “nem-nem”, como são conhecidos os jovens que nem trabalham e nem estudam.

“Não são problemas individuais. Elas são condicionadas à pobreza e também enfrentam normas de gênero que fazem com que as mulheres que fiquem nas primeiras duas barreiras e não se imaginem como agentes econômicos”, afirma.

“Elas se veem como dona de casa, e isso tem muito a ver com a falta de um modelo de mulher que conseguiu conquistar mais coisas”, ressaltou Miriam Müller. Nesse grupo há mulheres em uniões estáveis ou com filhos pequenos e que são afetadas por normas sociais restritivas que reforçam seu papel doméstico.

Há, diz o estudo, uma pressão social para desempenhar os papéis de “boas esposas e mães” para as meninas. A dependência econômica das mulheres também é naturalizada, assim como a atribuição de menos significado e prioridade ao trabalho delas e a dupla jornada.

No segundo grupo, de mulheres que querem voltar a trabalhar e estudar, mas não tomam medidas para isso, a falta de ação parece estar relacionada à ausência de modelos positivos em suas vidas que tenham tentado seguir caminhos semelhantes.

“Encontramos muitas jovens que tinham uma carreira em mente, mas que, por falta de modelos e pessoas que possam dar apoio emocional, como inscrição em exames e dicas de como preparar currículos, acabam sem referência de como continuar a trajetória”, disse Ana Luiza Machado .

As barreiras externas acabam afetando mais homens, e são mais fáceis de ser resolvidas, avalia Miriam Müller. “Providenciar transporte público seguro e disponível e melhorar a qualidade da escola não vai resolver o problema. Temos também que enfatizar outras duas áreas problemáticas, somar aspirações e ação”, declarou a autora.

“O ideal é trabalhar nas comunidades e mostrar mulheres que conseguiram outras coisas nas escolas e no trabalho ao lado da capacidade de agir”, ressaltou Miriam. “Se você tem apoio, pode superar a vulnerabilidade. Os pontos de apoio podem ser escola, a comunidade, as famílias.”

Segundo o estudo, é importante tratar das normas de gênero nas famílias e comunidades, assim como individualmente. “Muitas das mulheres entrevistadas não conseguem imaginar uma vida em que seu papel não seja somente o de uma cuidadora, nem considerar desafios específicos relacionados a mudar suas vidas”, apontou o estudo.

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