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Rio Grande do Sul Pesquisa detecta vírus da gripe bovina pela primeira vez na América do Sul

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Estudo identificou vírus em amostras coletadas em bovinos no Rio Grande do Sul. (Foto: Gustavo Diehl/Secom RS)

Realizada pela UFRGS em parceria com a Universidade Feevale, a pesquisa Cattle influenza D virus in Brazil is divergent from established lineages demonstrou que o vírus da influenza D já está presente entre os bovinos da América do Sul. Anteriormente, o vírus só havia sido identificado em animais da América do Norte, Europa e Ásia.

Publicado no periódico Archives of Virology, o estudo verificou dez amostras de ruminantes que manifestaram doenças respiratórias e, em uma delas, o vírus foi identificado.

Segundo Cláudio Canal, professor da Faculdade de Veterinária da UFRGS que participou da pesquisa, já se suspeitava que o vírus da influenza D circulava entre os bovinos do Brasil. “Já faz um ano, mais ou menos, que a gente estava procurando, até que localizamos um animal que tinha esse vírus.” O estudo pode ser o primeiro passo para investigar infecções por influenza D em bovinos no Brasil e em países vizinhos nos quais a indústria de carne bovina é economicamente importante.

Ao contrário dos vírus da influenza A e B, que afetam humanos e que já são conhecidos pelos pesquisadores há algum tempo, os vírus da influenza C e D foram descobertos recentemente, há cerca de dez anos. Apesar de ter sido primeiro detectado em suínos nos Estados Unidos, hoje se sabe que o microrganismo infecta principalmente os bovinos: Cláudio participou de um estudo epidemiológico que, a partir de amostras de soro bovino coletadas nos Estados Unidos em 2014 e 2015, verificou que 77,5% dos animais tinham anticorpos contra a doença, o que indica uma infecção prévia.

Influenza D

No Brasil, a primeira detecção ocorreu quando um produtor rural procurou o professor David Driemeier, também da Faculdade de Veterinária da UFRGS, para fazer o diagnóstico de bovinos que estavam com problemas respiratórios. Foram coletadas amostras – swabs nasais – desses animais e enviadas para laboratório. “O professor Driemeier me contatou, por eu trabalhar com vírus, e eu fiz um exame PCR dessas amostras, e em uma delas nós detectamos o vírus da influenza D”, afirma Cláudio.

Os pesquisadores então fizeram uma parceria com a Universidade Feevale para caracterizar o genoma (conjunto de todos os genes de um ser vivo) do vírus, utilizando um equipamento de sequenciamento de alto desempenho, também chamado de sequenciamento de última geração. Esse processo é utilizado para detectar seres vivos que ainda não são conhecidos pela ciência, como explica o docente: “Ele sequência todo o ácido nucleico, DNA e RNA que tem naquela amostra. Assim tu consegues ver o que tem ali de diferente do normal de se encontrar em um ser humano ou animal. No caso da influenza D, nós já sabíamos que [o vírus] estava naquela amostra, mas nós queríamos ter todo o genoma dele para conhecê-lo por inteiro, não só um pedacinho que a gente tinha detectado pelo PCR”.

“Essa ferramenta de sequenciamento de alto desempenho é importantíssima hoje em dia, basta ver no caso da covid-19 e em todas as novas doenças que estão sendo descobertas. Tem sido utilizada essa tecnologia para conhecer o agente, e se têm descoberto vírus e bactérias que não eram conhecidos antigamente. Isso abriu um mundo diferente para a biologia medicinal”

Investigações mais aprofundadas

O vírus da influenza D já foi detectado em humanos – inclusive já foram detectados anticorpos em criadores de bovinos, o que demonstra que o microrganismo circula na população humana. Ainda não é claro, porém, se a influenza D é relevante ao ponto de gerar sinais clínicos em pessoas. “Ainda não se sabe se é importante a doença respiratória que o vírus causa em humanos. Aparentemente é branda, mas tem pouco tempo [de estudo]”, completa o docente.

Além disso, os vírus causam diversas doenças que implicam prejuízos à saúde e prejuízos econômicos em animais de produção. De acordo com um relatório da Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, em 2020, o rebanho bovino brasileiro foi o maior do mundo, com 217 milhões de cabeças, representando 14,3% do rebanho mundial. E quanto mais animais são criados em grandes concentrações, maior a facilidade com que os vírus circulam entre eles, o que pode causar doenças que impactam a produção pecuária do país. Segundo Cláudio, o caminho a ser percorrido é longo, os próximos passos incluem saber se o vírus da influenza D está causando doenças nos bovinos e em que gravidade. Além disso, também é preciso verificar se será necessária a criação de uma vacina para impedir que os animais adoeçam.

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