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Saúde Pesquisa quer entender porque idosos centenários superam o coronavírus e jovens morrem

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Pesquisa investiga genes que podem tornar as pessoas mais resistentes ou vulneráveis ao coronavírus. (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Parouhi Darakjian Kouyoumdjian teve dengue e covid-19 simultaneamente, mas apresentou sintomas mais condizentes com uma forma leve da primeira. E se recuperou bem. Ainda mais raro do que o nome da senhora Parouhi foi seu caso surpreendente de coinfecção, principalmente se for levado em conta que ela tem um século de vida.

Ela adoeceu em agosto passado, mas seu caso continua a interessar cientistas. Eles buscam em suas células e genes pistas para combater a pandemia.

A senhora Parouhi, de São José do Rio Preto (SP), está entre os centenários estudados pela Universidade de São Paulo (USP) para identificar por que algumas pessoas aparentemente frágeis são infectadas e sequer desenvolvem sintomas, e outras, jovens e fortes, morrem de covid-19, sem nenhum fator de risco conhecido e mesmo que tenham acesso a bom atendimento.

São nesses extremos da pandemia que a ciência busca descobrir os pontos fracos do coronavírus. O Sars-Cov-2 é um assassino em massa, mas deixa flancos expostos, visíveis mais facilmente nos casos de resistência ou extrema suscetibilidade.

A pesquisa, liderada pela geneticista Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano e de Células-Tronco da USP, investiga genes que podem tornar as pessoas mais resistentes ou vulneráveis ao coronavírus.

O estudo está em curso, mas baseada em dados epidemiológicos apresentados recentemente, Zatz está convencida de que os resistentes são mais frequentes do que os suscetíveis a agravamento.

O problema é que, ainda assim, são milhões os vulneráveis e até o momento não há como identificá-los. Tampouco é fácil encontrar os resistentes porque não há como saber quem foi ou não exposto, devido à baixa testagem no Brasil.

“Os centenários com PCR positivo são resistentes evidentes, assim como jovens sem comorbidades que faleceram. Por isso, os estudamos”, afirma Zatz.

Características genéticas e imunológicas influenciam a forma como uma pessoa reage às infecções de forma geral. Isso é conhecido no caso da Aids e da dengue hemorrágica, por exemplo. Os casos de resistência ao HIV estão associados a uma mutação específica no gene CCR5, que bloqueia o vírus.

Mas a covid-19 parece ser ainda mais complexa, salienta Zatz. Não apenas um, mas um conjunto de genes explicaria o fato de centenários, alguns com comorbidades, além da própria idade avançada, escaparem ilesos do coronavírus. Tampouco a vulnerabilidade estaria associada a um gene só.

Identificar essas características promete revelar mecanismos fundamentais da covid-19 e formas de combate-la, abrindo caminho para desenvolvimento de novas vacinas e medicamentos. Tem ainda aplicações mais imediatas:

“Queremos entender, por exemplo, a resposta à vacina. Por que algumas pessoas produzem mais anticorpos do que outras, por exemplo”, explica.

Além de centenários sobreviventes e jovens que faleceram, a pesquisa investiga mais de 80 nonagenários que se curaram ou sequer manifestaram sintomas de covid-19 mesmo estando positivos; 100 dos chamados casais discordantes, definidos como aqueles em que um dos cônjuges adoeceu com gravidade ou morreu e o outro nada teve; e gêmeos igualmente expostos ao coronavírus.

O estudo com os jovens que morreram da doença sem ter qualquer comorbidade, com 45 indivíduos até o momento, é realizado em parceria com o grupo de Paulo Saldiva, professor titular do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Os centenários parecem frágeis, mas são o grupo mais resistente. Aguentam qualquer desaforo do ambiente, diz Zatz. O grupo dela estuda 13 centenários. A meta é, além de sequenciar o genoma deles, multiplicar suas células em laboratório, obter células-tronco e estudar a resposta delas ao Sars-CoV-2, inclusive às variantes.

Numa segunda etapa do trabalho, Zatz planeja ver como os resistentes respondem à vacina.

“Pode ser que tenham uma resposta diferente. Será que eles fazem mais anticorpos mesmo com uma só dose? Isso precisa ser investigado”, frisa ela.

Para testar essa possibilidade, o grupo da USP procura fazer uma parceria com o Instituto Butantan, que produz a CoronaVac.

Zatz está animada com a possibilidade de os casos de resistentes serem mais frequentes do que pensavam. Ela diz que não teve dificuldades para encontrar os chamados casais discordantes.

“Ninguém é mais exposto ao vírus do que o cônjuge ou companheiro de alguém infectado. Por isso, é relevante que uma pessoa adoeça ou morra e sua companheira nada tenha. Já fomos procurados por mais de mil pessoas de todo o País nessa situação e os e-mails de interessados em participar do estudo continuam chegando”, destaca ela.

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