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Colunistas Por que ler os clássicos: A Cartuxa de Parma e o Centrão

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Por isso, leiamos os clássicos. (Foto: Reprodução)

Stendhal (cujo nome era Marie-Henri Beyle) escreveu em menos de dois meses a grande obra La Chartreuse de Parme ou A Cartuxa de Parma.
Ele inspirou Tolstoi e Balzac, para falar apenas destes. Guerra e Paz tem resquícios da batalha de Waterloo descrita em La Chartreuse.

O personagem principal é Fabrício, jovem da família nobre. Deseja conhecer o Imperador Napoleão. À revelia de seu pai, vai lutar em Waterloo. Acaba sendo preso. Apaixona-se pela filha de um general – um amor impossível face à política.

Fofe com a ajuda de uma tia, e vai para o exílio. Entristecido, infeliz, jamais poderá ver sua amada. Não vale spoiler, pois não?

Ítalo Calvino escreveu a obra Por que Ler os Clássicos. E uma das tantas obras sugeridas, La Chartreuse de Parme é uma delas.

Relembra que na obra de Stendhal o romance se faz teatro, espaço fechado, tabuleiro de um jogo entre um número limitado de personagens, lugar cinzento parado no tempo. E uma cadeia de paixões que não “fecham”.
Veja-se: o conde Mosca, homem poderoso, escravo do amor por Gina. Sanseverina, que consegue tudo o que deseja e que só tem olhos para seu sobrinho, justamente o personagem Fabrício.

Já Fabrício ama a si mesmo em primeiro lugar, algumas aventuras rápidas como contorno e no final concentra todas essas forças que gravitam sobre e ao redor dele apaixonando-se perdidamente por Clélia, filha de um general inimigo.

Isso tudo é descrito por Stendhal: um mundo mesquinho de intrigas político-mundanas da corte, entre um príncipe obcecado pelo medo de ter enforcado dois patriotas e o promotor Rassi, que encarna a mediocridade burocrática naquilo que pode possuir de atroz.

E assim vai. Você pode encaixar muitos “personagens” reais nesse romance. Se achar muito difícil, pelo menos um deles é mais fácil: o “fiscal” (procurador).

Quem seria?

E quem seria o príncipe, que mandou enforcar dois patriotas?

Os clássicos “enxergam” longe. Machado de Assis, que inaugura o realismo literário no Brasil (La Chartreuse é realista), também escreveu contos e romances desse quilate.

Antes de autores que fizeram uma revolução no modo de compreender o mundo, como Wittgenstein, Gadamer e Heidegger, Machado, com o conto Ideias de Canário já mostra o problema da “linguagem privada”, denunciando o solipsismo – o vício em si mesmo, um pouco ou muito de Fabrício de La Chartreuse. E o que dizer da Teoria do Medalhão, em que o pai ensina ao filho Janjão, na noite em que completa 21 anos, como se tornar um Medalhão e viver às custas dos outros, enganar e sair sempre numa boa? Em vez de estudar obras sobre carneiros, é melhor comprar um, assá-lo e convidar os professores. Como pagar? Simples. Faz uma “rachadinha”. Esse Janjão…
Voltando a Stendhal e a Calvino: La Chartreuse mostra com quanta facilidade os ex-jacobinos ou os ex-bonapartistas se tornam – ou permanecem – autorizados e zelosos membros e apoiadores incondicionais do establishment.

Incrível como isso tem algum cheiro de Brasil, de adesões, adesistas, centrão, gente que era base aliada do governo de esquerda e que, depois, torna-se base aliadíssima do governo de direita. O que tem de ex-jacobinos, neo-jacobinos, pós-jacobinos, ex-bonapartistas, neo-bonapartistas e já-antes-de-acontecer-pós-bonapartistas… o leitor não tem ideia!

Por isso, leiamos os clássicos.

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