Quinta-feira, 18 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 10 de julho de 2021
O estresse provocado pela nota das Forças Armadas rebatendo Omar Aziz pode ser resumido em expressão popular dita por um sábio do Supremo Tribunal Federal com trânsito nos mundos político e jurídico: quem participa do bailão não pode reclamar de pisão no pé. Ou seja, os militares topam se embrenhar na administração pelas mãos de Jair Bolsonaro e, portanto, devem deixar de lado melindres e ilusões de que são intocáveis. Em linhas gerais, a reação militar às críticas de Aziz uniu políticos e ministros da Corte de diferentes grupos pela democracia.
O que motivou a cúpula militar a soltar a nota atacando Aziz (PSD-AM) foi ele ter falado em lado podre das Forças Armadas. Mesmo que o senador tenha deixado claro não se tratar do conjunto, os comandantes entenderam ser uma generalização absurda.
Se ele tivesse falado nominalmente de Eduardo Pazuello ou de Elcio Franco, exemplificou um interlocutor de Braga Netto, não teria havido problema. Aziz trouxe para o rolo até a Marinha, até agora distante de denúncias.
Quem esteve com Braga Netto diz que ele estava cuspindo marimbondos. O perfil do ministro da Defesa é muito diferente do de seu antecessor, Fernando Azevedo e Silva, demitido por não sair em defesa de Jair Bolsonaro.
Ainda na noite de quarta-feira (7), Braga Netto fez esses marimbondos chegarem até Rodrigo Pacheco (DEM-MG). Mas, na ligação do dia seguinte, agradeceu as declarações públicas “ponderadas” do presidente do Senado, porém, muito criticadas pelos pares dele.
Como se sabe, as Forças Armadas são um bloco monolítico e a declaração não agradou a todos. Militares da reserva que já ocuparam altos cargos acharam a nota fora de tom, só de interesse do presidente. O texto acabou por arrastar as Forças até a CPI…
O Diretório Nacional do PT, em nota, disse que “não cabe aos comandantes nem ao ministro da Defesa atuar como se fossem um partido político”.
“Lado podre”
Quando o senador Omar Aziz (PSD-AM), presidente da CPI da Covid, usou a expressão “lado podre das Forças Armadas” para designar envolvidos com supostas falcatruas no governo de Jair Bolsonaro, de imediato começaram as consultas entre os chefes militares. Os comandantes e o ministro da Defesa, Walter Braga Netto, viram na fala de um ex-secretário da Segurança Pública – Aziz ocupou o cargo no Amazonas – uma referência à “banda podre” das polícias, uma generalização considerada “inaceitável” pela cúpula militar.
Mesmo o comandante do Exército, Paulo Sérgio de Oliveira, que estava visitando unidades no Rio Grande do Sul, contribuiu com a redação do documento. No fim, a expressão “lado podre” não entrou na nota. Mas ela provocou a reação, assim como a palavra “genocídio”, usada pelo ministro Gilmar Mendes ao comentar a atuação dos militares na pandemia, provocara outra nota, em 2020. Os comandantes decidiram reagir ainda que a ação fosse interpretada como adesão a Bolsonaro ou como ameaça, conforme acusaram 60 entidades reunidas no Pacto pela Democracia. Também não mencionaram as denúncias contra os coronéis da Saúde. Disseram apenas que as Forças se “pautam pela observância da lei”.
Historicamente, toda vez que as Forças são confrontadas por civis, as divisões entre generais são esquecidas e eles procuram agir unidos – nesta quinta-feira, 8, até o ex-ministro Carlos Alberto Santos Cruz criticou a expressão “lado podre”. Mas ao tentarem impedir novos ataques às Forças Armadas na CPI, os comandantes permitiram a Bolsonaro e aos bolsonaristas usarem o episódio para vincular mais uma vez os militares ao governo. Símbolo disso foi o fato de o presidente e bolsonaristas terem distribuído a nota dos generais antes mesmo de o Ministério da Defesa divulgar o documento.
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