Sábado, 25 de julho de 2026
Por Renato Zimmermann | 25 de julho de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Décadas atrás, filmes como “Aliens – O Resgate” nos apresentavam um futuro distópico em que corporações privadas comandavam exércitos e decidiam o destino de planetas inteiros. Naquela narrativa, a guerra não era entre Estados-nação, mas entre empresas que disputavam recursos e territórios como se fossem soberanos. À época, parecia apenas ficção científica exagerada, uma metáfora futurista para o capitalismo selvagem. Hoje, porém, percebemos que a distância entre a ficção e a realidade diminuiu assustadoramente: as grandes corporações globais se tornaram mais poderosas do que muitas nações, controlando não apenas mercados, mas também fluxos de informação, tecnologia e até mesmo aspectos da vida política.
O colonialismo tecnológico que se impõe sobre países como o Brasil é a prova concreta dessa transformação. Se no passado o ouro, o café e o petróleo eram os recursos explorados por impérios coloniais, hoje são os dados, os algoritmos e a infraestrutura digital que se tornaram insumos estratégicos. As Big Techs, sediadas em centros hegemônicos, extraem informações de milhões de cidadãos, moldam comportamentos e influenciam processos democráticos. O que antes era ficção sobre corporações militares agora é realidade em forma de corporações digitais, capazes de bloquear atividades econômicas inteiras ou de espionar fluxos estratégicos de países inteiros.
A analogia com a ficção científica é inevitável. Nos anos 1980, Ridley Scott e James Cameron imaginavam universos em que empresas decidiam quem vivia e quem morria em colônias espaciais. Hoje, vemos empresas decidindo quem tem acesso a plataformas de comunicação, quem pode vender seus produtos online e até quem terá voz em debates públicos. A soberania dos Estados é corroída por uma lógica em que o poder econômico e tecnológico se sobrepõe ao poder político. Não é exagero afirmar que, em muitos casos, governos se tornaram reféns de corporações que controlam a infraestrutura digital global.
O Brasil, inserido nessa nova ordem mundial, enfrenta riscos concretos. A dependência de softwares estrangeiros, de chips fabricados em outros continentes e de nuvens controladas por empresas externas significa que setores vitais — como energia, finanças, agronegócio e saúde — podem ser paralisados por decisões tomadas fora de nossas fronteiras. Mais grave ainda: a espionagem digital permite que segredos industriais, estratégias de produção e até dados biomédicos sejam acessados por atores externos, fragilizando nossa soberania. É como se estivéssemos vivendo uma versão contemporânea das colônias exploradas por impérios, só que agora em escala digital.
A ficção científica sempre foi um espelho distorcido da realidade, antecipando dilemas que mais cedo ou mais tarde se materializam. Quando assistíamos às batalhas corporativas em Aliens – O Resgate, talvez não imaginássemos que, em pleno século XXI, empresas de tecnologia teriam orçamentos maiores que o PIB de países médios, capacidade de influenciar eleições e poder de decidir o rumo da economia global. O que era metáfora virou diagnóstico: vivemos em um mundo em que corporações são atores geopolíticos centrais, disputando territórios digitais e recursos estratégicos com a mesma voracidade que impérios coloniais disputavam colônias.
O desafio para o Brasil é escapar dessa armadilha. Precisamos investir em infraestrutura digital própria, fortalecer nossa indústria de semicondutores, criar nuvens nacionais e regular de forma firme o poder das plataformas. Mais do que isso, é necessário construir alianças regionais que nos permitam ganhar escala e reduzir dependências. A soberania tecnológica não é luxo, é questão de sobrevivência. Sem ela, corremos o risco de ver nossas atividades econômicas bloqueadas e nossos dados explorados como se fossem minério bruto extraído para enriquecer outros.
A ficção científica nos alertou: quando empresas se tornam maiores que nações, a democracia e a soberania ficam em xeque. Hoje, não estamos diante de naves espaciais ou colônias em planetas distantes, mas de servidores, algoritmos e plataformas digitais que definem o destino de sociedades inteiras. O Brasil precisa decidir se continuará como colônia tecnológica ou se terá coragem de construir sua própria autonomia. O futuro já chegou, e ele se parece muito com aquele cinema dos anos 1980 — só que agora, sem efeitos especiais, mas com consequências reais.
* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética (Contato: rena.zimm@gmail.com)
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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