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Edson Bündchen Que agenda nos governará?

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A impressão que temos, quando nos deparamos com a crescente complexidade do mundo, é que a nossa capacidade intelectiva desacoplou das vertiginosas mudanças em curso. Apesar, e indiferente a isso, a tecnologia evolui em saltos, os costumes mudam depressa e nossos vizinhos já não são os mesmos. Com maior longevidade, os velhos reclamam o seu espaço, enquanto jovens anseiam por construírem suas próprias histórias. Há uma intensa fragmentação de tudo, uma sociedade cada vez menos coesa e mais dispersa. Consensos são difíceis de forjar e fáceis de quebrar. Há excesso de oferta, excesso de informação, excesso de tudo. O hipercapitalismo nos convida a refletir de menos e consumir de mais. Há mais gordos no mundo do que pessoas passando fome, num retrato cruel da desigualdade social. Enquanto alguns se empanturram, outros não tem o que comer. O poder de estados e nações está cada vez mais difícil de consolidar e fácil de defrontar. Será que podemos confiar que teremos estabilidade um dia ou a incerteza nos governará, inapelavelmente? De fato, a fluidez da moderna sociedade não suscita somente inquietações pessoais, mas converte-se num dos maiores desafios para a própria comunidade global, especialmente quanto às respostas que lideranças cada vez mais acossadas por crescente pressão poderão fornecer.

No campo individual, há uma luta ferrenha entre o pensamento complexo e o linear, com o primeiro abarcando a aleatoriedade, a abertura, a contradição, a incerteza, a multiplicidade, incorporando-as, incluindo-as e aglutinando-as. No seu oposto, a linearidade encontra dificuldade para trabalhar com o sistêmico, não consegue dialogar com a ambiguidade e anseia por certezas que desapareceram. Para aqueles que sofrem com o desabamento da constância, surge a alternativa do confronto, do nós contra eles, do bem contra o mal, dentro de um paradigma de estabilidade e de simplificação arbitrária da realidade. Isso, obviamente, também repercute em todas as outras dimensões humanas e sociais, sendo o trabalho talvez o espaço mais visível dessa luta, nem sempre discreta. A competição predatória e a supressão dos adversários fazem parte de um enredo pontuado pela cultura imediatista e visão estreita, exatamente o contrário do que os tempos atuais reclamam. Não é à toa que esses mesmos atores caolhos e acríticos são os primeiros que buscam dar vazão às suas dores no resgate desesperado de bandeiras nacionalistas, xenófobas, intolerantes e obtusas, como salvaguardas para um passado que já morreu. A difícil superação do modelo linear, cartesiano e positivista, no seu sentido lato, é tão penosamente árdua quanto oneroso é aceitar que a autocrítica se faz necessária para essa superação. Modelos mentais de aprendizagem e abertura intelectual dialogam com bem mais desenvoltura do que estereótipos enclausurados no passado, mas esta é uma transformação cuja chave se encontra dentro de cada um de nós. É impossível terceirizar essa viagem.

Com a diluição cada vez maior do poder, governos e organizações precisam fazer a transição de um mundo linear para um ambiente mais complexo com a mesma urgência dos cidadãos. Novos formatos organizacionais já pontuam a realidade das empresas, enquanto os governos nacionais tardiamente e vagarosamente ainda se debatem em como ajustar-se a um mundo em ebulição econômica, política e social. Nesse contexto, a capacidade de mudança e a criação de uma nova mentalidade na gestão pública passam a ser fundamentais para o futuro das modernas sociedades. Governantes serão continuamente forçados a adotar posturas mais plurais, sistêmicas e polifônicas, dialogando com públicos diversos, cujos interesses hoje estão umbilicalmente ligados a uma agenda global, de respeito à diversidade, ao meio ambiente, às culturas locais, no combate a toda a forma de preconceito e contra a falta de liberdade. Quem conseguir galvanizar esse novo discurso de um modo coerente, poderá equilibrar os anseios que os indivíduos penosamente já se ocupam em fazer.

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