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Colunistas Quando a escala vira poder

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Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

O livro China’s 90% Model, de Ram Charan, descreve algo que vai muito além da competição comercial tradicional. A tese do autor é preocupante: a China deixou de competir empresa contra empresa e passou a competir sistema contra sistema. Com apoio estatal, crédito abundante, infraestrutura logística e planejamento de longo prazo, o país constrói capacidade industrial em escala gigantesca, domina cadeias produtivas inteiras e transforma dependência econômica em influência geopolítica.

A entrada acelerada de veículos elétricos chineses no mercado brasileiro é apenas a face mais visível de uma transformação profunda. Em poucos anos, marcas chinesas passaram de desconhecidas a protagonistas do setor automotivo nacional, oferecendo preços competitivos, tecnologia embarcada e velocidade de produção que a indústria instalada no País tem dificuldade de acompanhar. O mesmo movimento ocorre em painéis solares, baterias, equipamentos eletrônicos, máquinas e insumos industriais.

O problema vai além do fato de a China competir. Competição faz parte da economia global. O risco surge quando a diferença de escala se torna tão grande que empresas nacionais deixam de ter condições mínimas de sobreviver ou inovar. Uma indústria enfraquecida significa perda de empregos qualificados, redução da capacidade tecnológica do país e aumento da dependência externa em setores estratégicos.

Diferentemente dos Estados Unidos, que podem impor tarifas elevadas ou restrições comerciais sem comprometer sua estrutura econômica, o Brasil possui enorme dependência das exportações para a China. O país asiático é o principal comprador da soja, do minério de ferro, da carne e de outras commodities brasileiras. Uma postura de confronto direto poderia gerar retaliações comerciais severas.

O erro seria imaginar que a única resposta possível seja “fechar o mercado”. O verdadeiro desafio é construir competitividade interna. E isso exige abandonar a velha ilusão de que apenas o agronegócio sustentará o desenvolvimento brasileiro nas próximas décadas.

O país precisa urgentemente de uma política industrial moderna, focada em produtividade, inovação e integração tecnológica. Não se trata de repetir o modelo chinês nem de reeditar o protecionismo ineficiente do passado. Trata-se de criar condições para que a indústria brasileira consiga competir em segmentos estratégicos.

Isso passa por investimentos em infraestrutura logística, redução do custo tributário e regulatório, ampliação do crédito produtivo, fortalecimento das cadeias locais de fornecedores e estímulo à pesquisa aplicada. O Brasil também precisa decidir em quais setores deseja construir densidade industrial: transição energética, biocombustíveis, mineração crítica, agroindústria de alta tecnologia, semicondutores especializados, defesa e saúde são exemplos evidentes.

Outro ponto central é evitar a armadilha da simples montagem. Atrair fábricas chinesas para produzir localmente pode gerar empregos no curto prazo, mas terá efeito limitado se o país não desenvolver engenharia, fornecedores nacionais e domínio tecnológico. Sem isso, o Brasil corre o risco de se tornar apenas uma plataforma de consumo e montagem de produtos concebidos no exterior.

Há ainda uma dimensão geopolítica pouco debatida. Em um mundo marcado pela reorganização das cadeias globais, países que preservarem capacidade industrial terão mais autonomia estratégica. Os que se limitarem a exportar commodities dependerão cada vez mais das decisões tecnológicas e produtivas tomadas em outros centros de poder.
A provocação de Ram Charan deve ser levada a sério justamente porque ela expõe uma fragilidade brasileira histórica: nossa dificuldade de pensar escala, produtividade e política industrial de longo prazo de forma integrada.

A China entendeu que capacidade industrial é poder. A pergunta que o Brasil precisa responder é se pretende continuar apenas fornecendo matéria-prima para esse sistema, ou se deseja ocupar um espaço mais sofisticado dentro da economia do século XXI.

(Instagram: @edsonbundchen)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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