Segunda-feira, 13 de abril de 2026
Por Redação O Sul | 12 de abril de 2026
Existe dentro de todos nós uma comunidade fervilhante, composta por trilhões de células que influenciam inúmeros aspectos da saúde: a microbiota. A ciência confirmou há muito tempo que uma microbiota diversa e saudável é fundamental para bem-estar, pois influencia desde o humor ao metabolismo – e até o cérebro. Pessoas com menor diversidade bacteriana no intestino são mais propensas a enfrentar problemas do sono, baixa saúde intestinal e maiores inflamações. Já a alta diversidade, não rato, é relacionada à longevidade.
Mas existem evidências de que alguns dos alimentos que consumimos regularmente podem desestabilizar esse ecossistema. Os ultraprocessados, particularmente, podem prejudicar e alterar os micróbios intestinais. Um dos motivos é cada vez mais atribuído aos numerosos aditivos presentes nesses alimentos, o que nos leva a imaginar o que eles fazem com o intestino.
Se você observar qualquer lista de ingredientes na próxima vez em que for ao supermercado, rapidamente notará quantos emulsificantes alimentares, adoçantes artificiais e corantes alimentícios são adicionados à nossa comida. Esses itens fazem de tudo, desde melhorar o sabor dos alimentos ou fazer com que eles fiquem mais crocantes, até alterar a textura e conservá-los por mais tempo.
Saladas de frango aparentemente “saudáveis”, daquelas compradas prontas, podem conter um aditivo de alto risco: os emulsificantes, substâncias que permitem a mistura de óleos e água, comumente encontrados em alimentos ultraprocessados. A textura de um sorvete que derrete na boca, por exemplo, deve-se aos emulsificantes – que também estendem o prazo de validade dos alimentos.
Os emulsificantes ajudam o pão do supermercado a ficar mais tempo macio e explicam por que o bolo comprado na loja permanece úmido por mais tempo que o feito em casa. E são extremamente frequentes: uma análise por pesquisadores britânicos encontrou 6.640 produtos alimentícios contendo emulsificantes nos supermercados britânicos. Este número representa cerca da metade dos produtos analisados.
Evidências apontam que estes aditivos podem prejudicar a nossa microbiota intestinal. Eles foram relacionados à doença inflamatória intestinal, síndrome do intestino irritável e câncer colorretal. Pesquisas conduzidas em animais e seres humanos aparentemente indicam uma relação direta entre os emulsificantes e problemas de saúde.
Em um estudo em camundongos, liderado pelo microbiólogo Benoit Chassaing, do Instituto Pasteur em Paris (França), baixas dosagens de dois emulsificantes de uso geral levaram bactérias intestinais a se moverem mais perto da parede do intestino, gerando inflamações e sinais de doenças. Os camundongos já propensos a problemas intestinais sofreram inflamações mais graves.
Normalmente, nossos micróbios são mantidos a uma distância segura da parede intestinal por uma camada de muco que reveste o intestino, o que ajuda a evitar inflamações. Quando as bactérias penetram na camada de muco protetor, podem surgir doenças inflamatórias crônicas, segundo Chassaing.
Em um estudo francês que envolveu mais de 100 mil adultos em 2024, os participantes mais expostos a emulsificantes apresentaram maior risco de contrair diabetes tipo 2. Outro estudo, entre mais de 90 mil adultos, encontrou possíveis ligações entre os emulsificantes e o câncer de mama e de próstata.
Estes resultados tratavam de correlações, mas Chassaing e seus colegas coletaram amostras do intestino de participantes, em um pequeno exame em seres humanos. Demonstraram que um emulsificante comumente usado como espessante em alimentos, consumido por pessoas saudáveis, prejudicou a microbiota intestinal e reduziu a quantidade de micróbios saudáveis.
Chassaing e o professor de dietética Kevin Whelan, do King’s College de Londres, colaboraram recentemente em um teste clínico de indivíduos com doença de Crohn. O exame concluiu que as pessoas com dieta reduzida de emulsificantes apresentaram probabilidade três vezes maior de experimentar redução dos sintomas, em comparação com os que ingeriram emulsificantes regularmente como parte da sua alimentação.
Incerteza
Apesar das preocupações com a saúde, não existem orientações públicas sobre a necessidade ou não de evitarmos os emulsificantes. Um motivo é simplesmente porque existem muitos aditivos na nossa alimentação, e os cientistas não sabem ao certo quantos deles são tóxicos – ou se a sua combinação é prejudicial, segundo Whelan.
Todos os emulsificantes que comemos foram aprovados pela indústria alimentícia, segundo Chassaing. “Eles só são testados em relação ao seu efeito de toxicidade ou à capacidade de induzir danos ao DNA”, explica. “E, nestes dois aspectos, eles são perfeitamente aceitáveis. Mas eles nunca foram testados para determinar o efeito direto sobre a microbiota.” (com informações da rede BBC)
Você receberá um email de confirmação após enviar o seu primeiro comentário, mas ele só será publicado depois que você clicar no link de verificação enviado para a sua conta de e-mail para confirma-lo. Os próximos comentários serão publicados automaticamente por 30 dias!