Segunda-feira, 14 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 9 de maio de 2023
Se você navegar pelo Oceano Pacífico daqui a oito anos, poderá ter uma visão surpreendente. Talvez você consiga observar cerca de 400 toneladas de metal rasgando o céu. Será um tremendo inferno incandescente, devido à reentrada na atmosfera terrestre. E irá cair no oceano, atingindo uma área que pode ter milhares de quilômetros de extensão.
Será o fim de um dos maiores projetos da humanidade: a Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês). A ISS orbita a Terra desde o início da sua construção, em 1988. Ela já recebeu mais de 250 visitantes de 20 países desde a chegada da sua primeira tripulação, em novembro de 2000.
“A estação espacial é um imenso sucesso”, afirma Josef Aschbacher, chefe da Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês). A agência é uma dentre as mais de dez parceiras do programa.
A ISS é uma conquista da colaboração global, principalmente entre os Estados Unidos e a Rússia, que firmaram sua parceria pouco depois da queda da União Soviética.
“Realmente, é uma das grandes vitórias internacionais”, segundo Thomas Zurbuchen, ex-chefe de ciências da Nasa (agência espacial dos EUA).
Mas grande parte dos seus equipamentos tem décadas de idade e, algum dia, a estação pode se tornar perigosa ou até incontrolável em sua órbita da Terra. Foi o que aconteceu em 1985 com a estação espacial soviética Salyut 7, que precisou de dois cosmonautas para repará-la.
“Com certeza não queremos passar por aquilo de novo”, afirma a historiadora espacial Cathy Lewis, do Museu Nacional do Ar e do Espaço dos Estados Unidos.
Para evitar que uma catástrofe espacial como aquela ocorra novamente, a ISS será retirada de órbita em 2031. Ela será trazida através da atmosfera até mergulhar com segurança no Oceano Pacífico. Será a maior reentrada espacial da história.
Planejar exatamente como retirar a estação de órbita é uma tarefa imensa. Em março, a Nasa pediu ao Congresso americano recursos para iniciar o desenvolvimento de um “rebocador espacial” que pode ser necessário para a tarefa – uma aeronave para empurrar a estação de volta para a atmosfera. A chefe do programa de voos espaciais humanos da Nasa, Kathy Lueders, revelou que o custo estimado do rebocador seria de pouco menos de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5 bilhões).
Para o astrônomo Jonathan McDowell, do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsoniano, nos Estados Unidos, “é um desafio significativo”. “Um objeto de 400 toneladas caindo do céu é algo grande.”
A estação começou a ser montada em 1998. Inicialmente, era um único módulo chamado Zarya, construído pelos russos.
Hoje, ela é enorme – são 16 módulos, vastos painéis solares montados sobre uma armação metálica e radiadores para retirar o calor. Uma tripulação itinerante de sete pessoas mora atualmente na estação.
A ISS tem 109 metros de comprimento e é do tamanho de um campo de futebol. É a maior estrutura humana já montada no espaço. “É como as pirâmides de Gizé”, afirma a analista espacial Laura Forczyk, da empresa de consultoria americana Astralytical.
A vida útil da ISS já foi ampliada várias vezes. Mas o consenso é que seria perigoso estendê-la além de 2030.
Outras soluções, como elevar a estação até uma órbita mais alta, são impraticáveis, segundo a Nasa. Seriam necessárias dezenas de espaçonaves para empurrar a ISS para uma altitude segura.
Por isso, o plano delineado pela Nasa no ano passado é empurrar a estação inteira de volta para a atmosfera.
Tudo começará em 2026, quando se permitirá que a órbita da ISS comece a cair naturalmente com o arrasto atmosférico. Ela irá cair de 400 para cerca de 320 km em meados dos anos 2030.
Nesse momento, uma última tripulação será enviada à estação, provavelmente para retirar equipamentos ou objetos de significado histórico remanescentes. Essa retirada também ajudará a reduzir o peso da ISS.
Após a saída da última tripulação, a altitude da estação irá cair ainda mais, para 280 km. Essa altitude é considerada o ponto de não retorno – a estação não poderá ser impulsionada de volta, acima da força de arrasto causada pela atmosfera mais densa do nosso planeta.
O processo completo pode levar vários meses. O plano atual é que, ao atingir o ponto de não retorno, aeronaves russas Progress deem o impulso final para que a estação ingresse na atmosfera do planeta.
A cerca de 80 km acima da superfície da Terra, os módulos começarão a se separar antes de entrarem em chamas devido aos milhares de graus de temperatura na reentrada, que irão fazer com que eles derretam e se desintegrem.
Diversos estrondos serão ouvidos enquanto os destroços percorrerem o céu.
Mas, se tudo correr conforme o planejado, esses fragmentos flamejantes não representarão risco para a vida humana.
Os fragmentos que eventualmente sobreviverem à reentrada irão se dirigir ao Ponto Nemo – uma extensão do Oceano Pacífico entre a Nova Zelândia e a costa do Chile, frequentemente utilizada como cemitério de espaçonaves. As informações são da BBC News.
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