Terça-feira, 26 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 10 de agosto de 2024
Em 1924, quando Paris recebeu pela segunda vez uma edição dos Jogos Olímpicos, uma inovação foi introduzida na estrutura da competição: criou-se uma vila olímpica, um espaço comum em que os atletas poderiam se hospedar durante os dias de evento. Localizada no bairro de Colombes, nos subúrbios da capital francesa, a vila visava estabelecer um senso de comunidade e integração entre os atletas. Feita de cabanas de madeira, cada uma com três camas, foi desmontada após os jogos.
Em um século, muito mudou na história das vilas olímpicas, que agora são consideradas pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) um elemento fundamental para garantir a organização e o sucesso dos Jogos. Para as cidades-sede, tornaram-se também um sinônimo de legado pós-evento. Além de ser uma chance de promover econômica e turisticamente um local, podem transformar urbanisticamente regiões urbanas inteiras.
“Os Jogos foram crescendo em números de atletas, de esportes, e tudo isso foi gerando a necessidade de uma infraestrutura cada vez maior. Além disso, o evento passou a receber patrocinadores e viveu o efeito midiático”, diz a arquiteta Renata Latuf, que pesquisou o legado urbanístico dos jogos do Rio de Janeiro 2016 na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).
Na era moderna, as cidades candidatas a acolher as competições estão descobrindo os megaeventos esportivos e seu potencial, e as estruturas pensadas para os Jogos Olímpicos permitem aos municípios promover sua imagem no mundo. “Os Jogos Olímpicos contribuem significativamente para deixar símbolos, monumentos e patrimônios nos locais que sediam o evento”, explica Valerio della Sala, pesquisador do Centro de Estudos Olímpicos da Universidade Autônoma de Barcelona.
De acordo com Della Sala, há três tipos de legado urbano que os Jogos Olímpicos podem deixar: renovação das áreas existentes, construção de novas zonas urbanas e melhoria das redes de infraestrutura, como a de transporte. “O objetivo do COI é incentivar a criação de um lugar mais atraente para se viver nas cidades, com melhor qualidade de vida, por meio da melhoria das condições espaciais.”
Ao longo da história, há projetos de vilas olímpicas considerados modelo de transformação urbana, caso de Barcelona, na Espanha, e Munique, na Alemanha. Por outro lado, podem resultar em estruturas abandonadas, como aconteceu com as dos Jogos de Berlim 1936, ou a processos de gentrificação, a expulsão de moradores para transformação de bairros periféricos em áreas nobres, destinadas à especulação imobiliária.
Pelo menos três das quatro sedes dos últimos eventos enfrentaram críticas sobre processos de gentrificação. Londres, em 2012, Rio de Janeiro, em 2016, e agora Paris, em 2024, colocam em questão a capacidade das cidades de usarem os Jogos e suas vilas para criar um legado habitacional.
A vila olímpica do Rio de Janeiro 2016 foi construída pela iniciativa privada, numa parceria da construtora Carvalho Hosken e a Odebrecht, e era composta por 31 edifícios divididos em sete setores e 3.604 apartamentos, com capacidade para 18 mil atletas.
Em entrevista ao jornal The Guardian, em agosto de 2015, o então único acionista do projeto, Carlos Carvalho, afirmou que a Barra da Tijuca, onde está construída a vila, deveria ser “uma cidade da elite, de bom gosto”, dando o tom do que se almejava com as habitações ao fim dos jogos.
Conhecido como Vila dos Atletas durante os jogos, o empreendimento faz parte do complexo imobiliário Ilha Pura, classificado pela própria construtora como um condomínio de alto padrão.
Como conta Renata Latuf em sua tese de doutorado, os habitacionais já foram construídos sob polêmica, com flexibilização da legislação urbanística para permitir torres mais altas e a ausência de um plano que destinasse parte dos imóveis à habitação social, para cidadãos de baixa renda. Na construção do Parque Olímpico inteiro, houve ainda a desapropriação e remoção de moradores da favela de Vila Autódromo.
Os apartamentos começaram a ser vendidos logo após os Jogos, a cerca de R$ 2 mil acima da média do metro quadrado na região. Após três anos, só 15% dos apartamentos haviam sido vendidos. Atualmente, 1.100 imóveis vendidos e ocupados, ou seja, 30% do total. As informações são da emissora internacional de notícias da Alemanha Deutsche Welle.
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