Segunda-feira, 10 de agosto de 2026
Por Redação O Sul | 28 de junho de 2020
Maureen Baldwin já prescreveu pílulas para aborto para mais de 100 mulheres que ela nunca viu pessoalmente. Há cerca de dois anos, a ginecologista e obstetra americana realiza “teleabortos”, uma modalidade relativamente recente que ganhou mais visibilidade em meio à pandemia de coronavírus.
“Temos estado mais ocupados nos últimos dois meses”, diz Baldwin, que trabalha no Estado de Oregon (noroeste do país) para a Oregon Health & Science University (OHSU, na sigla em inglês).
Nos Estados Unidos, apesar de o aborto por meio da telemedicina ser proibido em 18 Estados, mais mulheres solicitam esse tratamento desde março, quando ordens de confinamento foram implementadas em todo o país.
É isso que a organização de pesquisa em saúde Gynuity, com a qual a dra. Baldwin colabora e que, sob o nome de TelAbortion, fornece um modelo de aborto medicamentoso orientado por telemedicina pioneiro no país, disse ela à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
Em comparação com os meses de janeiro e fevereiro, em março e abril “o número de mulheres atendidas pelo programa dobrou”, explica Elizabeth Raymond, médica e porta-voz da Gynuity.
O teleaborto também está disponível em países como Canadá, Austrália e Colômbia e cresceu em alguns devido à pandemia.
É o caso da Inglaterra, cujo governo determinou temporariamente que as pacientes tivessem a opção de fazer todo o tratamento em casa, em vez de ir a um centro médico, para evitar possíveis infecções por Covid-19.
Mas a prática não é isenta de polêmicas nos Estados Unidos. Tanto que um grupo de senadores do conservador Partido Republicano apresentou recentemente um projeto de lei para proibir seu uso em todo o país.
Aumento na pandemia
Em sua carreira, Baldwin já atendeu mulheres que estão nas Forças Armadas e não têm acesso a clínicas de aborto, mulheres que moram a três horas ou mais da clínica mais próxima autorizada a realizar abortos e até pacientes que têm filhos pequenos e não têm com quem deixá-los para ir a uma consulta.
Houve outras que tentaram realizar um aborto caseiro e sem acompanhamento médico depois de comprarem pílulas não autorizadas pela internet.
E o interesse só cresce. “As pacientes me dizem que querem evitar ir pessoalmente aos laboratórios ou consultórios médicos”, diz Baldwin sobre os últimos dois meses, quando começou a receber mais consultas enquanto os Estados Unidos se tornava o epicentro mundial da pandemia. O TelAbortion é o único programa americano que envia os medicamentos para o aborto por correio, com acompanhamento por videoconferências.
A médica explica que, antes de as pacientes receberem um kit que inclui os dois principais medicamentos para aborto, o mifepristone e misoprostol, ela solicita um ultrassom para verificar se a gravidez está abaixo ou dentro das 10 semanas de gestação necessárias para prescrever medicamentos e consultas por videoconferência.
De acordo com um regulamento da Food and Drug Administration do país (FDA, na sigla em inglês), o medicamento mifepristone só pode ser administrado por fornecedores certificados em espaços médicos específicos, o que não inclui farmácias. Mas o Gynuity torna o envio possível como parte da pesquisa científica apoiada pela FDA.
Isso significa que as pacientes concordam em colaborar com o estudo, iniciado em 2016, e que visa avaliar “a segurança, estabilidade e acessibilidade” da abordagem da telemedicina.
Alguns centros de pesquisa em saúde sexual e reprodutiva, como o Instituto Guttmacher, argumentam que os regulamentos atualmente impostos ao mifepristone pela FDA são “desnecessários”, pois o medicamento é “de baixo risco, altamente eficaz e menos de 0,4 % dos pacientes necessitam de hospitalização por infecção ou transfusão.”
O custo do tratamento TelAbortion pode variar de US$ 200 (R$ 1.120) a US$ 750 (R$ 4.200) nas 9 clínicas do país afiliadas à pesquisa.
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