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Economia Saiba por que o dólar não cai no Brasil como acontece no resto do mundo

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Em ao menos 27 países, a moeda nacional se valorizou frente ao dólar. (Foto: Marcos Santos/USP Imagens)

Os juros baixos nos Estados Unidos e o aumento de gastos públicos naquele país para combater os efeitos da pandemia, elevando a liquidez no mundo, levaram o dólar a se desvalorizar frente a várias moedas, particularmente de países emergentes. Mas não frente ao real.

Segundo levantamento da FGV realizado com 31 países no período de um ano (até março de 2021), em 27 deles, a moeda nacional se valorizou frente ao dólar. Ou seja, o dólar ficou mais fraco e caiu.

Em apenas quatro, incluindo o Brasil, a moeda nacional teve desvalorização. Isto é, o dólar subiu. O real só não apresentou desempenho pior do que a lira turca.

Os dados são dos professores Henrique Castro, da Escola de Economia da FGV-SP, e Claudia Yoshinaga, Coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da FGV.

Uma combinação de fatores políticos, fiscais e sanitários conferem resiliência à divisa americana aqui no Brasil, que se sustenta acima dos R$ 5 desde junho do ano passado.

Segundo o Boletim Focus, relatório semanal do Banco Central (BC) com as expectativas de agentes de mercado, divulgado na segunda-feira, as projeções para a taxa de câmbio estão em R$ 5,40 para o fim deste ano e R$ 5,26 para o fim de 2022.

Mesmo mudanças nos juros, como a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de elevar a taxa básica (Selic) em 0,75 ponto percentual, não têm surtido muito efeito no câmbio no curto prazo.

Uma onda de elevação dos juros básicos é esperada neste ano, com o presidente da autoridade monetária, Roberto Campos Neto, já tendo reiterado que um novo aumento no patamar de 0,75 está previsto para ocorrer em maio.

Para analistas ouvidos pelo jornal O Globo, são fatores locais os maiores responsáveis pelo comportamento do dólar no Brasil. Entre eles, estão a situação fiscal delicada, a instabilidade política e um ineficaz combate à pandemia.

As projeções são de que a moeda brasileira siga desvalorizada nos próximos meses.

O Brasil viu seu quadro fiscal piorar com a Covid-19. A necessidade de mais gastos para socorrer pessoas em situação de vulnerabilidade e as empresas, o alto número de despesas obrigatórias, e uma arrecadação menor fizeram com que a dívida pública aumentasse.

Dados divulgados pelo BC mostram que, em fevereiro, a dívida pública estava na casa dos R$ 6,744 trilhões, representando 90% do Produto Interno Bruto (PIB), maior patamar da série histórica.

A dívida teve aumento de 17,9% em 2020, ultrapassando os R$ 5 trilhões, segundo o Tesouro Nacional. Portanto, um problema já estrutural do país foi agravado pela pandemia.

Um efeito colateral do aumento dos juros será justamente o aumento desse montante, já que boa parte dessa dívida é indexada à Selic.

“O mundo costuma ser o vetor mais importante e a dinâmica local tempera o cenário que vem de fora. Mas o que a gente tem percebido nos últimos meses é que sistematicamente o Brasil tem se atrapalhado”, disse Livio Ribeiro, pesquisador associado do FGV IBRE e sócio da BRCG.

Para o economista-chefe da Infinity Asset, Jason Vieira, enquanto o cenário político e fiscal estiver conturbado, o dólar não deve ceder. Para ele, a moeda americana poderia estar na faixa entre R$ 4 e R$ 5 se não fossem os problemas do país.

“Desde a última reunião do Copom, tivemos uma melhora, mas a taxa de juros nominal estava muito baixa no ano passado. Com isso, os investidores tiveram preferências por emergentes com taxas melhores. A questão política e fiscal gera muita incerteza e contribui para manter o câmbio elevado.”

Com a pandemia, setores importantes para o PIB, como o de serviços, tiveram que ficar fechados por muito tempo e coube ao governo tentar dirimir as perdas.

A falta de habilidade do Executivo em lidar com a crise também contribuiu para o real depreciado por causa da incerteza no horizonte dos investidores para trazer dólares ao Brasil.A nossa economia, como outras, foi fortemente afetada pela pandemia. Mas aqui, esse efeito de uma pandemia sem controle permanece por muito mais tempo. A gente poderia estar melhor se tivéssemos tido maior controle sobre a pandemia. O Brasil acaba pagando por conta da forma como lidou com esse problema”, ressalta o professor da Escola de Economia de São Paulo da FGV, Henrique Castro.

Castro ressalta que há setores que tiveram um bom desempenho, além da própria Bolsa, mas que isso não é suficiente para impactar a economia como um todo.

Para Ribeiro, não há apenas um fator que explique o atual patamar do dólar, mas sim vários vetores que, em conjunto explicam a resistência da moeda em ceder diante o real. Ele também ressalta as consequências dos acontecimentos políticos para a economia.

“Não é somente a questão fiscal. Tem o combate à pandemia, maior intervencionismo nas empresas estatais e até a questão ambiental. Você não tem como dizer que foi um único fator, nominalmente, mas existe um ambiente na economia brasileira de mais incerteza e que tem conspirado para um maior mau humor com a moeda doméstica”, explica. As informações são do jornal O Globo.

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