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Mundo Segundo especialistas, a moeda comum, sugerida por Bolsonaro para a América do Sul, vai contra o discurso da equipe econômica do presidente

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Bolsonaro se encontrou com o presidente argentino Mauricio Macri: moeda única estaria em estudo. (Foto: Reprodução)

A possibilidade de Brasil e Argentina adotarem uma moeda comum, o ” peso real “, aventada pelo presidente Jair Bolsonaro, em Buenos Aires, é criticada por economistas. Segundo especialistas em economia internacional e política monetária, o projeto contraria o discurso que a equipe do presidente Bolsonaro vinha sustentando a respeito do Mercosul , exigiria uma série de medidas para harmonização econômica que levaria no mínimo uma década e esbarraria na assimetria entre os dois países – como o desequilíbrio inflacionário argentino.

“Tratado da maneira leve como foi, parece um factoide, não faz o menor sentido. A construção do euro, por exemplo, demorou décadas e foi precedida de um complexo processo de integração econômica. Para se cogitar uma moeda comum, o primeiro passo é aumentar a integração econômica”, diz Luiz Carlos Prado, professor o Instituto de Economia da UFRJ e especialista em economia internacional.

Prado diz ainda que seria necessária uma mudança de estratégia da equipe econômica: “Tanto o ministério da Economia como o Itamaraty vinham afirmando que o Mercosul não era prioridade. Vai ser uma retomada então do Mercosul? Porque só assim seria viável. Do jeito como foi tratado, sequer merece uma análise acadêmica séria”.

O especialista em economia internacional lembrou que o Mercosul é hoje uma união aduaneira, com uma tarifa externa comum, mas com inúmeras exceções, dadas as diferenças econômicas entre os países-membros. Segundo Prado, para ampliar a integração econômica rumo a uma moeda única, uma série de medidas teria que ser tomada em um processo que levaria no mínimo uma década.

“Isso implicaria na adoção de um conjunto grande de mudanças. Uma delas seria um processo de estabilização monetária e fiscal dos dois países, pois os dois precisariam estar em equilíbrio. Haveria que se pensar também em mecanismos tributários, na criação de uma taxa de câmbio fixa e na livre circulação de trabalhadores. Por fim, estabelecer um banco central único”, explicou o especialista. “É um processo para uma década, quem sabe até de décadas.”

Após a declaração de Bolsonaro sobre o “peso real”, o ministro da Economia , Paulo Guedes, explicou que se trata apenas de uma ideia, ” poderia acontecer em um prazo de 20 anos” e que ele mesmo vem defendendo essa possibilidade desde a década de 80. A proposta foi criticada pelo presidente da Câmara , Rodrigo Maia (DEM-RJ), no Twitter.

Perdas tem que ser bem pensadas

Na opinião do economista Luis Eduardo Assis, ex-diretor de política monetária do Banco Central (BC), o projeto é “tão complexo quanto inútil”.

“Isso está longe de ser algo remotamente prioritário na agenda da economia. É um tema inconveniente, tão complexo quanto inútil, que não sabemos de onde saiu e não faz sentindo diante dos problemas urgentes que temos, como desequilíbrio fiscal e estados quebrados. Já temos nossos próprios problemas, não deveríamos procurar acrescentar a eles os da Argentina. Além disso, contraria o que o Paulo Guedes vem falando sobre o Mercosul, que ele não enxerga como prioridade”, observou Assis.

Márcio Sette Fortes, professor de economia internacional do Ibmec-RJ e conselheiro da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), lembrou que o Mercosul debate há décadas a criação de uma moeda comum, mas o plano esbarra em desequilíbrios econômicos tanto internos como externos. Nos anos de 1990, o plano de ter uma moeda regional chamada “gaúcho” foi abandonado pelos problemas econômicos enfrentados pela Argentina naquela década, enquanto o Brasil se estabilizava, contou Fortes.

Posteriormente, depois da crise de 2008, Brasil e Argentina conseguiram estabelecer o Sistema de Pagamentos em Moeda Local (SML), que permite a exportadores e importadores fechar transações em suas próprias moedas locais, mas até hoje o SML não é relevante, disse o especialista. Segundo Fortes, caminhar rumo a uma moeda comum também poderia esbarrar em obstáculos e significaria abrir mão de ferramentas de política macroeconômica.

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