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Por Redação O Sul | 25 de março de 2020
Sete em cada dez pacientes graves com coronavírus são obesos ou estão acima do peso, revela dados do serviço de saúde inglês, o NHS, obtidos a partir de admissões nos centros de cuidados intensivos no Reino Unido.
Foram analisados 196 pacientes internados entre segunda (16) e quinta (19) da semana passada. Desses pacientes, 16 morreram.
O estudo, liderado pelo Centro Nacional de Pesquisa e Auditoria em Terapia Intensiva, mostra que 71,7% dos que estão nas UTIs por Covid-19 têm excesso de peso — na população adulta em geral, a taxa é de 64%.
Outra informação que chama atenção no levantamento: perto de 40% dos doentes estão na faixa etária idade abaixo de 60 anos.
No Brasil, onde 55,7% da população adulta está com excesso de peso e 19,8% é obesa, alguns serviços de saúde já começam a perceber uma possível associação entre obesidade e quadros mais graves de infecção por coronavírus.
“Ainda é só uma impressão, não temos dados definitivos para dizer que há uma associação clara. Alguns colegas começaram a notar isso, mas não é geral, aparece mais em pessoas mais jovens e obesas. Não é regra entre os idosos”, afirma o infectologista Esper Kallás, professor da USP.
Segundo ele, talvez haja alguma alteração comum entre esse grupo (jovens obesos) e idosos, ainda não muito bem compreendida.
Uma hipótese, diz o infectologista, é que essas alterações estejam no que se chama de resposta inata. “Não é uma coisa construída com anticorpos, com imunidade celular, mas sim algo que está presente no germe. Cabe uma reflexão para a gente entender melhor porque essas pessoas [jovens obesos] vão pior.”
Não é a primeira vez que a relação entre obesidade e infecção viral é estabelecida. Um estudo da OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre a pandemia do H1N1 em 2009, já relatava uma associação entre a obesidade e os quadros mais graves da doença. A publicação envolveu uma revisão de resultados de 70 mil laboratórios de 20 países.
A obesidade é uma doença crônica que envolve um inflamação contínua do corpo, que é o que leva ao aparecimento de inúmeras doenças como diabetes, hipertensão e até o certos tipos de tumores.
Essa inflamação tem influência direta sobre o sistema imunológico, principalmente sobre as células adiposas, segundo o cirurgião bariátrico Caetano Marchesini, pesquisador e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica.
“Os adipócitos, células especializadas em acumular gorduras no corpo, tomam volume e começam a comprometer a circulação do sangue que as supre de oxigênio. Isso causa uma hipóxia, morte celular com liberação de ácidos graxos na circulação, levando a uma resposta inflamatória com ativação de vários mecanismos que comprometem a imunidade dos pacientes.”
Outra hipótese é que a obesidade promova defeitos no sistema imunológico alterando a contagem de leucócitos, além da resposta dessas células a condições infecciosas.
Entre as explicações estão o aumento da produção de um hormônio chamado leptina e a diminuição de outro, a adiponectina. O primeiro promove inflamação e o segundo é um hormônio anti-inflamatório. O aumento da leptina tem efeito direto sobre as células imunológicas.
Segundo Marchesini, as recomendações e os cuidados nesse momento de pandemia não mudam para pessoas obesas, mas precisam ser reforçados. “Pacientes com obesidade devem tomar ainda mais cuidado para não se contaminarem.”
A pesquisa britânica também mostra que a média dos pacientes graves com coronavírus é de 63 anos, e sete em cada dez casos são de homens. Pouco mais de 10% dos pacientes estudados tinham condições de saúde mais sérias — 4%, com problemas renais, 3% com doenças pulmonares e 3,7% eram imunodeprimidos.
As atuais políticas de enfrentamento do coronavírus no Reino Unido e em outros países têm priorizado pessoas com idade média de 70 anos, que sejam frágeis e tenham doenças associadas.
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