Quinta-feira, 09 de Abril de 2020

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Tito Guarniere Sindicatos e partidos de araque

Presidente transformou a pasta em secretaria no início de seu governo. (Foto: Marcos Corrêa/PR)

Nós, os brasileiros, somos talentosos e criativos. Mas o que poderiam ser virtudes essenciais, com enorme frequência degeneram em oportunismo, em ganho fácil e parasitário.

Dou-lhes dois exemplos: os sindicatos e os partidos políticos. Ninguém se oporá – se não for um cabeça dura e um idiota fundamental – à livre criação do sindicato, o organismo legítimo, qualificado, de defesa dos interesses dos trabalhadores e dos agentes econômicos. Ou dos partidos políticos, agremiações centrais da vida democrática, que expressam correntes de opinião e pensamento, que articulam uma certa visão de mundo, um certo conjunto de interesses, de modo a atuar nas esferas próprias do poder republicano e influenciar os destinos do país.

Mas o que foi feito deles, os sindicatos e os partidos políticos, no Brasil? A maioria deles se transformou em um meio de vida, um balcão de negócios, um simulacro das nobres razões de suas respectivas existências, pequenos (e grandes) feudos de domínio de espertalhões. Cria-se um sindicato, funda-se um partido político, como se abre uma padaria no bairro, sem que isso – por favor – queira ofender o valioso ofício dos padeiros.

E porque é assim ou assim tem sido no Brasil? Follow the money. Siga o dinheiro.

Os sindicatos eram, até há pouco tempo, financiados pelo dinheiro do imposto sindical, um dia de salário de cada trabalhador (no caso dos sindicatos de trabalhadores) por ano, que, multiplicado pelo número de empregados com carteira assinada no Brasil, somava uma fortuna de bilhões de reais.

No auge desse modelo torto, de origem fascista, o Brasil tinha mais sindicatos do que o resto do mundo: mais de 15 mil, entre os trabalhistas e patronais. Sim, os patrões, também eles, tinham o seu próprio sindicato, sustentado pelo imposto sindical. E quem pagava o imposto? Era o respeitável público, o consumidor, uma vez que a despesa já vinha embutida no custo dos bens e serviços.

Essa máquina formidável era administrada e bancada, alegremente, pela nata dos sindicalistas de empregados e patrões. Ali, os líderes sindicais das duas categorias, faziam a vida, empregavam amigos, aliados e a parentagem, e se eternizavam no poder. Já não há mais imposto sindical, extinto durante o breve governo do ex-presidente Michel Temer. A sinecura ainda vai gerar efeitos daninhos durante algum tempo. No ínterim, e na calada da noite, notórios pelegos articulam fórmulas malandras de ressuscitar a geringonça.

Rigorosamente o mesmo se pode dizer dos partidos políticos. Picaretas de todos os naipes colhem as assinaturas necessárias para criar um partideco qualquer, ajambram um programa partidário retirado da internet, e emplacam uma nova sigla. Tudo cartorial, de fachada, menos o dinheiro do fundo partidário. É um acinte.

Se o governo de Bolsonaro tivesse só um pouco de discernimento e de vontade real de ser o “novo” em política, estaria empenhado em acabar com a farra dos partidos políticos “fake”. Mas é o inverso: depois dos rolos internos do PSL, ele mesmo está querendo um partido para si, um partido que ele possa chamar de seu, só seu.

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