Quarta-feira, 27 de Maio de 2020

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Tito Guarniere Intenção e gesto

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Jack Littlejohn, que tinha uma passagem de primeira classe no voo de Nova York a Londres, trocou de lugar com Violet Allison, 88 anos, negra, e fez a travessia em classe econômica. (Foto: Leah Amy/Facebook)

Deu na Folha de São Paulo: o escocês Jack Littlejohn, que tinha uma passagem de primeira classe no voo de Nova York a Londres, trocou de lugar com Violet Allison, 88 anos, negra, e fez a travessia em classe econômica. Violet tinha ido aos Estados Unidos visitar a filha.

Jack Littlejohn não fez alarde. Fez a troca discretamente, apenas comunicando à comissária de bordo. Não fotografou e não pediu para divulgar. Foi um ato simples de bondade e gentileza. O assunto só veio a público porque Leah Amy, comissária de voo, decidiu divulgá-lo no Facebook.

A comissária elegeu Jack e Violet os seus passageiros prediletos, ela que já havia atendido, ao longo da carreira, dezenas de artistas e celebridades, que costumam viajar na primeira classe.

O ato de Littlejohn é desses que resgata um pouco de fé na humanidade. O mundo não é feito só de maldades. Há esperança e sinais – raros embora – de que a trajetória do homem sobre a terra ainda vale alguma coisa.

O gesto fala ao coração de toda pessoa sensível, nesta época em que tudo é vulgar e passageiro, em que nos cobram o tempo todo ações e atitudes capazes de salvar o mundo, quando mal sabemos de que modo podemos salvar a nós mesmos.

Tive o capricho de ler os comentários nas redes sobre o episódio. A maioria – vejam que podemos ser esperançosos – achou bacana e elogiou. Mas não faltou quem achasse Littlejohn meio otário, abrir mão do conforto a que tinha direito para presentear uma desconhecida.

E, pior, não faltou quem explicasse o ato generoso como forma de aplacar o remorso, pelo tanto que ele acumula em suas mãos de riqueza e do que ele usufrui no mundo de desigualdade – só pode ser rico quem viaja de primeira classe.

Ou seja, há pessoas que nunca dão folga. Deve ser uma vida muito cheia de ressentimentos, estar buscando sempre, no outro, intenções mesquinhas, mesmo em gesto tão gentil e elegante.

Para um vasto contingente de pessoas “bem pensantes”, o que faz a virtude é a simples declaração de benevolência e a solidariedade meramente verbal com os desvalidos. E gente rica, como parece ser Littlejohn, se faz algo de bom é porque está arrependido dos males que cometeu ou porque esconde algum interesse subalterno.

Porém, não basta dizer-se adepto da ética do bom motivo. Isso é o fácil, o vulgar, todos fazem, a esquerda e a direita – ao menos dizem fazê-lo. É preciso mais: à intenção suposta deve corresponder o gesto apropriado. Devemos ser o que pregamos, manter coerência entre os princípios que dizemos defender e o que fazemos no cotidiano da vida real.

Pouco importa, pois, quais eram as intenções e os sentimentos de Littlejohn. Um impulso de bondade? Pretendia ganhar uma indulgência daquelas que – talvez – fosse o penhor para a entrada no reino dos céus? Remorso, pelo conforto em que provavelmente vive, com o dinheiro que deve ter? Jamais saberemos.

O evento, como ele se apresentou e como está aparente nas manchetes dos jornais do mundo, fala mais alto: o gesto é maior do que a intenção. É o que vale, e o que conta. Ele fez melhor o jovem escocês, e com um pouco de otimismo, nós também ficamos um pouco melhores na foto.

 

 

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