Domingo, 05 de Abril de 2020

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Tito Guarniere Imprensa

(Foto: Marcos Corrêa/PR)

Afinal, a imprensa está a serviço de quem, de Bolsonaro, de Lula, da Lava Jato? Depende de quem reclama. Bolsonaro, como se sabe, é um crítico azedo e contumaz da imprensa – Folha, Globo e o que mais houver. Ele – e os seus acólitos – têm a imprensa como inimiga e como nenhum outro governante nestes últimos 20 anos, ameaça e toma medidas abertas de retaliar jornais, revistas e emissoras de televisão.

No discurso de Lula e do PT e dos seus aliados, os ataques à mídia não são menos comuns e virulentos. No campo da esquerda, e desde sempre, como os meios de comunicação pertencem ao segmento do capital, só existem para defender seus interesses de classe e para desabonar as forças populares e democráticas. A mesma imprensa, para eles, foi cúmplice operosa do impeachment de Dilma e da prisão de Lula, no apoio à Lava Jato e na vitória de Bolsonaro.

A Bolsonaro, e a Lula, se acresça mais recentemente o Ministério Público Federal, particularmente a turma da Operação Lava Jato, Deltan Dallagnol à frente. Nas conversas gravadas pela The Intercept, Dallagnol bate na imprensa, por causa do que ele supõe ser a ligação dos veículos com grupos interessados na estabilidade do governo Michel Temer. “Há capitalismo de compadrio”, diz ele. “O problema é que a imprensa é dominada por elite política e econômica”, reclama textualmente. Mais do procurador: “os compadres usarão sempre a imprensa para manter o poder”.

Está bem claro no discurso de todos eles: só a imprensa a favor é boa. Todos eles têm nas redações jornalistas de sua confiança e predileção, que utilizam quando necessário para passar a sua versão dos fatos. Mas todos eles reclamam se a imprensa cumpre o seu papel com independência, sem poupar críticas e questionamentos. Todos eles gostariam de alguma forma de controle da imprensa.

Se todos têm queixas e se acham vítimas da má vontade e da parcialidade da imprensa, só pode haver uma conclusão: a imprensa cumpre com exação e equidistância o seu ofício e os acontecimentos ligados aos atores do embate político. Esses atores são ultrassensíveis quando a notícia é contra eles e questiona alguma prática. Quando lhes serve e agrada, está tão somente cumprindo o seu dever.

É histórica a abordagem de que a imprensa, nas democracias ocidentais, reflete apenas os interesses privados – uma contingência inevitável, dizem. Mas olhada a questão de perto, conferida com isenção, mesmo pertencendo a grupos empresariais, de algum modo o modelo de concorrência expressa uma visão pluralista, não apenas entre eles, mas no interior do próprio veículo. É comum nas redações o convívio de correntes políticas diversas e até antagônicas. A Folha de São Paulo é o melhor exemplo.

É certo que a imprensa de donos privados tem lá seus defeitos. Mas ainda é a melhor forma da existência e funcionamento de jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão. Não há imprensa livre, nem mais falsa, tediosa e de má qualidade, do que a imprensa única, do partido único, oficial, como era o Pravda, na antiga União Soviética, e como ainda é hoje em Cuba, com o Granma.

 

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