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Edson Bündchen Sócrates e a era da pós-mentira

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A guerra de Peloponeso marcou o declínio de Atenas e teve o testemunho de Sócrates, talvez seu filho mais ilustre. Todos perderam com o histórico conflito, como sempre acontece quando o diálogo naufraga e prevalece a ideia de supressão do outro, mas a humanidade se nutre até hoje dos ensinamentos que o pai da filosofia ocidental capturou de sua experiência no campo de batalha e na pólis grega. Tal como no cotidiano daquela época, a atual sociedade se debate tardiamente entre a razão e o mítico, entre o factual e a mentira, entre o conceito e a opinião. Ainda hoje, passados mais de 2.400 anos das reflexões socráticas, buscamos o conhecimento objetivo, num cada vez mais incessante fluxo torrencial de dúvidas, medo e insegurança. Quando Sócrates refutava a cosmologia, preferindo o fundamento de uma existência moral, racional e reflexiva, antecipava uma emancipação que até hoje não ocorreu, conforme podemos constatar no secularismo injuriado, no medo governando muitas realidades e na mentira proliferando sem freios. Numa era de juízos tão líquidos e escorregadios, jamais se precisou tanto de uma fundamentação da verdade, universal e independente, de modo a refutar a enxurrada de fabulações, cujos ardis agridem os modernos conceitos de justiça e liberdade.

A mentira, aliás, desde que o primeiro sofista se embrenhou a debater com Sócrates, teve sempre curso de alta valia para demagogos e contorcionistas retóricos. Assim, é sempre tempo para resgatar a crença na virtude, em seu sentido mais denso, buscando-se o ordenamento do mundo social na valorização do conhecimento, da sabedoria, da justiça e da consciência moral dos cidadãos. Isso soa premente quando nunca se mentiu tanto, em tão pouco tempo e para tantos. Com a proliferação das redes sociais, a opinião antes inocente adquiriu ares de arrogância, com hordas de milícias digitais se digladiando sem limites razoavelmente civilizados. A era das incertezas e da impermanência vem sendo aplainada à força por convicções inauditas e improváveis, muitas por embustes, imposturas intelectuais e deslavadas inverdades. Sem nenhuma pretensão estética, linguística ou de compromisso que passem perto do rigor e da precisão, mas embaladas na mais desassombrada e contraditória autoconfiança, o fenômeno da mentira viral coloca em xeque o ideal democrático, uma vez que a confiança na palavra é solapada, e prevalecem “sub-versões” da realidade, com recortes errados, imprecisos, senão maliciosos e até criminosos.

Esse “estado de coisas” no trato da comunicação na Internet, tem estimulado, por exemplo, mais até do que a disseminação indiscriminada de mentiras, reinterpretações de conceitos antes havidos como consagrados, num trânsito livre e desenfreado de teses, teorias e conspirações que consternariam o mais arrojado ficcionista. Antes mesmo de pensar em qualquer tipo de censura ou controle dos meios de comunicação, se faz necessária uma nova demarcação do que é razoável e, no presente contexto, a razoabilidade está em flagrante desvantagem. Relações justas constroem uma sociedade justa. Relações mentirosas constroem uma sociedade hipócrita e doente, incapaz de parir a verdade no seio da mentira. Por isso, a sociedade atual precisa olhar para dentro de si, assim como o Oráculo de Delfos propunha para os cidadãos atenienses, reassumindo que valores fidedignos não são construídos com simples opiniões, mas na firme consciência de que somos agentes morais, cuja essência maior, enquanto membros da sociedade, é o compromisso com a autenticidade. O ciclo perverso de falsidades hoje visto, contaminando a vida e as relações sociais, na era da “pós-mentira”, é uma ameaça real à própria convivência harmônica e civilizada que foi idealizada com tanto sacrifício por aqueles que nos antecederam. Desse legado ainda palpitante, cumpre-nos entusiasmo e destemor em sua defesa, assim como fez Sócrates, e mais modernamente Immanuel Kant, ao eleger a verdade como um imperativo categórico acima de nossa própria vontade.

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