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Edson Bündchen Os discursos “Mal-Ditos” e a Democracia

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Na Roma antiga, com os poderes de tribuno, e a um giro do polegar, o imperador podia punir com a morte, sem juízo prévio, qualquer pessoa que não cumprisse com seus deveres. Muitos séculos depois, na França, Luís XIV também decidia sobre a vida e o futuro de súditos, cidadãos comuns ou até mesmo membros da própria Corte sem nenhuma cerimônia ou freio legal. Não eram necessárias muitas palavras para se obter o convencimento ou a concordância de terceiros submissos. O tempo passou e o absolutismo ficou para trás. O surgimento do Estado Moderno, baseado na repartição de poderes de Montesquieu, moderou a ação do governante de plantão e permitiu que as decisões mais extremadas fossem mitigadas por ponderação legal, ou seja, a Lei passou a superar os arroubos, os desejos ou caprichos pessoais dos detentores de poder. A força argumentativa, na imbrincada teia de relacionamentos que permite que se governe, adquiria maior relevo, e junto consigo, como sempre na história, também emerge o falseamento da realidade. Começava, de forma ainda incipiente, a hoje famigerada indústria das “fake news”.

A comunicação, nos dias atuais, especialmente com o advento das mídias sociais, em todas as instâncias, se encontra muito mais fragmentada, difusa e polifônica. Artur Roman, Doutor em comunicação pela USP, criou uma forma original para caracterizar os vários discursos que são comuns às organizações. Há segundo o autor, a comunicação “bem-dita”, “não-dita” e “mal-dita”, todas presentes e intercambiantes no processo comunicacional, sinalizando o tipo de relações que se estabelecem a partir dessa estrutura. As piadas, bobagens, brincadeiras, “sacanagens”, fofocas, boatos e rumores compartilhados pelos funcionários no ambiente de trabalho são os discursos “mal-ditos”, produzidos na clandestinidade, desautorizados, não-oficiais, inconsequentes e irresponsáveis. Aparecem normalmente nas chamadas “rádio corredor”, “rádio peão” e “rádio cafezinho”, enfim, nas redes sociais presenciais e, especialmente, nas virtuais. Trazem uma “sub-versão” da realidade. Não têm compromisso com a exatidão dos fatos e com a verdade, portanto não são confiáveis.

Em ambientes corporativos, a boa interlocução é um pré-requisito essencial para que a gestão flua a contento. Quando expandida para a comunicação às massas, comum a governantes, uma comunicação efetiva se torna ainda mais crítica, seja ela feita em cima de um palanque, na grande mídia ou nas redes sociais. A tipologia proposta por Roman, não se circunscreve, portanto, apenas ao mundo corporativo, mas pode ser observada com até mais evidência na vida política. Discursos “mal-ditos”, sendo inconsequentes e irresponsáveis, ameaçam a própria estabilidade democrática, como observado hoje no Brasil. O contorcionismo retórico, estando em desserviço à verdade, além de ferir a ética, cria uma “sub-versão” da realidade, abre flancos de oposição mundo afora, afeta nossas relações comerciais e enfraquece a vida institucional. As fofocas, os boatos, os rumores compartilhados até podem ser mitigados enquanto restritos a ambientes corporativos, mas tornam-se insidiosos quando nutrem sistemáticos ataques à Imprensa, defendem posturas antivacina e anti-isolamento na condução da atual pandemia e, sistematicamente, agridem o Estado Democrático de Direito.

Seria cômodo se pudéssemos tributar tais desatinos verbais a simples descuidos. Entretanto, mesmo a “Navalha de Hanlon” sugerindo que não devemos tributar à malícia aquilo que pode ser explicado mais adequadamente pela burrice, é adequado termos cautela na assertiva desse antigo epônimo. Reconhecer a força das palavras e atentar para seu uso de forma ética e responsável deve ser tarefa de todos. Discursos “mal-ditos” continuarão a existir, mas identificá-los é a primeira tarefa para quem, verdadeiramente, objetive absorver das palavras toda a sua força, toda a sua exatidão e toda a sua grandeza, em especial quando discursos “mal-ditos” assombram o futuro da própria democracia.

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