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Edson Bündchen Simples, não mais que isso!

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Foto: Reprodução

A simplicidade é o último estágio da sofisticação, teria dito Leonardo Da Vinci, justo ele que levou a arte ao último grau de refinamento artístico. Tomado esse adágio em toda a sua inteireza, faz sentido imaginarmos que algo, por mais complexo que seja, torne-se simples, mas não menos arrebatador, ao olhar de quem observa, sem que seja necessário penetrar nos meandros que fizeram determinado engenho tornar-se uma obra de arte, um conceito magistralmente elaborado, ou uma ação que implique destreza incomum.

Contudo, vista de maneira apressada ou astuciosa, a frase do gênio italiano esconde um risco hoje potencializado em diversos setores da vida humana. Nas mídias sociais, por exemplo, se converte numa comunicação mais pobre, menos elaborada, mais fugaz e simplória. O pretexto da simplicidade, é bem verdade, não deveria ser refúgio para o desleixo, a preguiça e o desinteresse, mas isso ocorre com frequência.

Com a profusão de pictogramas ou ideogramas, também conhecidos como “Emojis”, o recurso a uma linguagem bem elaborada, dá lugar à síntese, porém ao custo, pelo menos em parte, do próprio pensamento que se deseja exprimir, e isso pode sinalizar bem mais do que sugere um simples descuido.

Nesse panorama, quem não aprende o “novo” idioma, e não se curva à comunicação por figurinhas, mas fala de maneira “normal”, pode ser visto com desconfiança pelos outros. Seu discurso tenderá a ser classificado como muito complicado e raro, porque exige uma capacidade de atenção e reflexão perdidas. Poucos estão hoje dispostos a ouvir, tampouco ler textos mais apurados, longos para os padrões do Twitter, e muito menos, parar e refletir.

Assim, discursos razoáveis, lógicos e coerentes tornam-se incompreensíveis para a maioria, uma maioria que teve uma educação sistemática à loquacidade, mais oral que escrita, em vez do reforço à técnica da boa argumentação. Há certa preguiça intelectual, uma malemolência condescendente e pouco provocativa a rondar o comportamento de muitos.

Raros se atrevem a enfrentar leituras mais espinhosas e adensar, de fato, seus repertórios. Assim, caímos nas armadilhas dos “memes”, e dos chavões que infestam as mídias sociais. Nesse ambiente, formar determinados consensos a partir da lógica argumentativa é fatigante. Mais atraente é acreditar em fadas e mitos… Eles não exigem tanto do nosso cérebro e tornam o mundo mais simples, mas não menos improdutivo e inseguro, senão retrógrados e, em determinados casos, obscurantistas.

Ao tempo em que soa paradoxal comprimir o repertório vocabular para enfrentar um ambiente crescentemente complexo, a dicotomia, a linearidade e a simplificação forçada da realidade também extrapolam o campo retórico e emergem como ameaças à conformação política e sociológica, como é possível perceber nos discursos eivados de atraso, intolerância e truculência, sinônimo de um descuido não apenas vernacular, mas humanístico também.

A propósito, dialogar com a emergente agenda humanista, que incorpora conceitos de maior cooperação, integração e interdependência, pressupõe o oposto do que a tendência aponta hoje, ou seja, premência por maior capacidade de expressão, a partir da arte combinatória, de visão sistêmica e de um aprendizado que coloca cada um de nós como protagonistas do próprio desenvolvimento pessoal.

O uso exagerado dos hieróglifos modernos, ao tempo em que compromete o pleno potencial que o manejo da palavra nos permite, tem servido a discursos apelativos e simplificadores da realidade. Maior apuro linguístico, além de melhor nos revelar, contribuiu para uma comunicação não apenas adequada, mas capaz de posicionar, dialogar e enfrentar a realidade com naturalidade e fluência.

A agenda multidisciplinar moderna, nos quais os saberes conversam incessantemente, veio para ficar, impactando a todos. A partir de um melhor repertório, fruto de um esforço determinado, a verdadeira simplicidade poderá estar ao alcance das mãos, sem que para isso precisemos imaginar sermos um gênio renascentista.

 

Edson Bündchen

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