Sexta-feira, 29 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 8 de dezembro de 2019
Tarcísio Meira chega de cadeira de rodas ao Teatro Faap, em São Paulo, onde encena O Camareiro, peça do dramaturgo inglês Ronald Harwood. O espetáculo narra a relação entre um ator shakespeariano à beira da morte e seu camareiro. O personagem central ganha brilho na interpretação de Tarcísio, que tem a idade certa para viver o velho ator que vê com pesar a perda de amigos e reflete sobre a morte.
Aos 84 anos, o artista paulistano faz parte da história da TV. Contratado pela Globo na década de 60, encarnou como poucos a figura do galã — belo, destemido e bom moço — em novelas como Irmãos Coragem (1970) e Coração Alado (1980). Na entrevista a seguir, Tarcísio fala da perda dos próprios companheiros, conta os segredos do casamento de mais de meio século com a atriz Glória Menezes e lamenta a falta de papéis nas novelas atuais: “Os autores não gostam de velhos”.
1) No espetáculo, seu personagem é uma pessoa à beira da morte. A possibilidade de morrer o assusta?
Sim, ela assusta. Ninguém gosta de pensar que o fim está chegando. Mas ele está chegando para mim. É triste também lidar com a perda dos amigos. Certa vez, fui receber um prêmio de cinema. Dei de cara com o diretor de teatro Antunes Filho. Foi uma alegria, porque fazia anos que não o via. Eu disse: “Antunes, somos sobreviventes”. Pouco tempo depois, o próprio Antunes morreu. A esta altura da vida, muitos colegas da minha idade se foram. Daqui a pouco, vou eu. Talvez eu deixe um vazio nas pessoas.
2) Antes de a peça estrear, o senhor estava internado.
Foi, rapaz. Fiquei onze dias no hospital com uma pneumonia braba, e tivemos de adiar a estreia em duas semanas. Passei meu último aniversário, em outubro, também internado. Ganhei festinha, bolo, os médicos e os enfermeiros cantaram Parabéns para mim. Nos dois últimos anos, tive duas gripes fortes que atacaram meus pulmões.
3) Por que é cada vez mais raro ver o senhor e sua mulher, Glória Menezes, nas novelas da Globo?
Os autores não acreditam que existam velhos na família brasileira, nem que eles tenham papel relevante. Sabe como é, são jovens autores, que se preocupam com os jovens. O que eles deveriam saber é que hoje são as pessoas de idade que passam mais tempo na frente da televisão assistindo às novelas. E essas pessoas sempre acompanharam minha carreira e a da Glória.
4) Nos últimos tempos, a Globo vem reduzindo drasticamente os contratos de longa duração com suas estrelas. O senhor e Glória continuam sendo funcionários da emissora?
Sim, somos. Não sabemos por quanto tempo. Os contratos vencem em breve. Creio que devem terminar por esses dias.
5) Qual a importância da TV em sua trajetória?
Sou louco pela televisão. Quando entrei na TV, o artista brasileiro só era conhecido por uma elite que frequentava o teatro. Uma elite que não era formada por muitas pessoas, mas suficiente para manter o teatro funcionando. O artista tinha a preocupação de fazer um espetáculo popular, mas não ganhava o bastante para se manter. Eu mesmo trabalhei no fórum de São Paulo como escrevente. Com o advento da teledramaturgia, o ator brasileiro finalmente chegou ao povo como ele queria: a novela revelou-se uma forma de fazer um teatro popular de fato.
6) Para um ator, não é sempre mais prazeroso fazer teatro do que novela?
Eu adoro novela. Marcello Mastroianni dizia que nós, artistas dos folhetins brasileiros, somos os únicos que vivemos papéis que estão em construção em tempo real. Em nenhum outro lugar existem novelas como as do Brasil. No México até existe, mas eles usam ponto para gravar. Aqui, não. O ator realmente participa da vida do personagem. O autor escreve a novela de um jeito, o diretor entende talvez uma coisinha diferente e a gente faz ainda mais diferente, porque trazemos na memória a atuação nas cenas anteriores. A gente ajuda a escrever a história do personagem, não somos meros repetidores de palavras em cena. Mas é claro que alguns autores não gostam quando mexemos no texto.
7) O meio teatral já discriminou o senhor por atuar na televisão?
Não, porque eu estava no início da minha carreira quando comecei nas novelas. Não era um astro como Raul Cortez ou Sérgio Cardoso. E o Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, ex-chefão da Globo), que ajudou a fazer a história da TV no país, sempre teve o cuidado de chamar bons atores de teatro para as novelas. Ele sempre quis os melhores. Na verdade, tive mais problemas com o cinema do que com a televisão. Não deveria ter feito a metade dos filmes que fiz. Poderia ter sido melhor nisso. Mas não falarei sobre eles.
Os comentários estão desativados.