Sexta-feira, 21 de agosto de 2026
Por Redação O Sul | 20 de agosto de 2026
Prometida como atalho para mais força, energia e ganho muscular, a testosterona virou uma obsessão popular nas redes sociais. Agora, a “mania” alcançou o Exército dos Estados Unidos, que passará a medir os níveis do hormônio em soldados com mais de 30 anos e a incentivar a reposição hormonal.
Mas a testosterona nem sempre entrega o resultado propagandeado. Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, seu uso — por cápsulas, géis, adesivos ou injeções — pode ter efeito limitado quando não há indicação médica, é feito sem acompanhamento especializado, em doses inadequadas ou esbarra em fatores como hábitos de vida e algumas condições de saúde.
Veja, abaixo, cinco motivos pelos quais a testosterona pode não ser eficaz — e até ser contraindicada — para resolver seus problemas e entenda por que os benefícios do hormônio dificilmente superam os riscos.
– 1. Você talvez nem precise dela: Um dos principais motivos para que não se note diferença após o uso da testosterona é bastante simples: a falta de necessidade de tomá-la.
Segundo o professor Bruno Gualano, presidente do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Universidade de São Paulo, nem sequer faz sentido medir rotineiramente os níveis de testosterona, como o Exército americano pretende fazer.
“Ao olhar da ciência, não existe uma pandemia de hipogonadismo social, ou seja, as pessoas não têm um déficit de testosterona coletivamente”, ele afirma.
A avaliação é compartilhada pelo endocrinologista Clayton Macedo, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretor de comunicação da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.
“Nenhuma sociedade médica recomenda medir testosterona em toda a população. Isso não é uma conduta científica”, explica.
“Essa triagem indiscriminada pode inclusive identificar pessoas saudáveis com valores limítrofes — no limite entre o normal e o alterado —, que acabam servindo de gancho para prescrições inadequadas.”
O médico acrescenta que “a testosterona, por interesses mercadológicos, tem sido vendida como solução para inúmeros problemas que, na maioria das vezes, não têm relação com esse hormônio”. “Está cansado? É testosterona. A libido está baixa? É testosterona. Quer emagrecer ou ganhar músculo? É testosterona”, ele lista.
Ele afirma que, antes de indicar qualquer tratamento, é preciso identificar a causa dos sintomas, e não apenas tentar aliviar suas consequências. “O exemplo clássico é a obesidade. Nesses casos, há maior conversão da testosterona na gordura, mas o tratamento é emagrecer, não repor testosterona”, afirma.
O endocrinologista recorre a outra comparação para ilustrar o raciocínio: “Até cocaína deixa o cara mais animado. Nem por isso a gente vai prescrever cocaína”.
Gualano ressalta que a reposição só é indicada quando a queda da testosterona não está ligada a fatores reversíveis, como a obesidade. Ainda assim, o tratamento nunca tem como objetivo proporcionar um ganho extraordinário de força.
“O objetivo é normalizar os níveis do hormônio para que a pessoa recupere força, massa muscular e vitalidade semelhantes aos de alguém com produção normal de testosterona. A ideia não é proporcionar um desempenho acima do normal”, explica.
– 2. Cada organismo reage de um jeito: Ter testosterona circulando no sangue não basta. Para produzir seus efeitos, o hormônio precisa se ligar ao receptor de andrógeno, uma proteína presente em diferentes tecidos do organismo, como músculos, ossos, cérebro, próstata e pele.
No tecido muscular, por exemplo, essa ligação estimula a síntese de proteínas, reduz sua degradação e favorece a regeneração das fibras.
Há variações genéticas na sensibilidade desses receptores. Assim, pessoas com níveis semelhantes de testosterona podem responder de formas diferentes ao hormônio, e até mesmo quem tem menos testosterona pode aproveitar melhor sua ação do que alguém com níveis mais altos.
Além disso, pessoas com quantidades parecidas de testosterona e a mesma sensibilidade dos receptores podem apresentar níveis diferentes de força e disposição, pois a baixa vitalidade nem sempre é causada pela falta do hormônio, acrescenta Gualano, da Faculdade de Medicina da USP.
“Estamos sempre sendo sugados pelo trabalho e por uma sociedade que exige que a gente performe mais do que é capaz. Isso leva ao esgotamento físico e mental. Mas a causa disso não é falta de testosterona. O tratamento seria reduzir o estresse, desacelerar, aliviar a pressão”, ele explica.
– 3. O hormônio não age sozinho: A testosterona faz parte de uma cadeia de hormônios produzidos a partir do colesterol.
Quando administrada como medicamento, ela chega pronta ao organismo, dispensando essa etapa de produção. Mas isso não significa que seus efeitos estejam garantidos.
Após entrar na circulação, o hormônio ainda precisa chegar aos tecidos, penetrar nas células, ligar-se aos receptores de andrógeno e ativar genes responsáveis pela síntese de proteínas e pelo crescimento muscular.
Se esse processo for comprometido — por fatores como doenças, deficiências nutricionais ou alterações metabólicas —, a resposta do organismo pode ser menor do que o esperado.
– 4. Você pode ter deficiência nutricional: Mesmo quando a testosterona cumpre todas as etapas necessárias para agir no organismo, ela ainda depende de nutrientes para que esse estímulo se traduza em ganho de energia, força e massa muscular.
O fósforo, por exemplo, é essencial para a produção de ATP, o trifosfato de adenosina, a principal molécula responsável por armazenar e fornecer energia para as células.
O magnésio, por sua vez, é necessário para que essa energia seja utilizada em centenas de reações do corpo, entre elas a síntese de proteínas, responsável pelo crescimento das fibras musculares.
Há ainda o ferro, indispensável para levar até os tecidos oxigênio, sem o qual os músculos produzem menos energia, fatigam mais rapidamente e demoram mais para se recuperar.
Em outras palavras, mesmo que a testosterona seja produzida em níveis adequados pelo próprio corpo ou administrada como tratamento, seus efeitos podem ser menores porque faltam recursos nutricionais para transformar o hormônio em estímulo.
– 5. Doenças como obesidade e diabetes são entraves: Algumas doenças também reduzem a capacidade do organismo de responder à testosterona.
Na obesidade, por exemplo, o excesso de gordura libera substâncias inflamatórias que alteram o funcionamento das células musculares. Com isso, elas passam a responder menos aos sinais enviados pelo hormônio para estimular o crescimento — um fenômeno conhecido como resistência anabólica.
O diabetes tipo 2, por sua vez, produz um efeito semelhante por outro mecanismo.
A resistência à insulina, característica da doença, dificulta a entrada de glicose nas células e reduz a eficiência da síntese de proteínas, essencial para o crescimento e a recuperação muscular. As informações são da BBC News.
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