Domingo, 05 de Abril de 2020

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Colunistas Tout va très bien: O castelo pega fogo, mas tudo vai bem!

Há um livro interessante que pode ajudar a entender determinadas reações no campo da política em Pindorama.

Falo do livro de Alan Riding, Paris, a Festa Continuou, que trata da vida cultural de Paris durante a ocupação nazista. Há uma bela passagem, que fala de uma canção popular do ano de 1936, interpretada por Ray Ventura, chamada Tout va très bien, Madame La Marquise (“tudo vai muito bem, Madame La Marquise”).

A canção denunciava o que a França fingia não queria ver: o cataclismo que se aproximava. Na canção, os empregados de uma aristocrata continuavam a assegurar-lhe de que tudo estava bem, embora um incêndio tenha tomado conta de seu castelo, destruindo os estábulos e matando a sua égua favorita. Além disso, o marido de Madame cometera suicídio, mas, ainda assim, não havia com que se preocupar, porque, afinal, “tout va très bien, Madame La Marquise”.

Além do livro Paris, A Festa Continuou, há também o filme italiano Stanno tutti bene (1990), com Marcelo Mastroianni (os filhos estavam todos “bem”: por exemplo, o que era maestro, na verdade apenas tocava um tambor!).

O que quero dizer? Simples. Penso que é possível fazer uma alegoria da canção e da situação nela apresentada com a situação do Presidente da República e de integrantes do seu staff. Tudo vai bem, mas o castelo está pegando fogo.

Denunciei, no calor dos acontecimentos, nas redes sociais, o mal que fazia ao Brasil um Presidente da República dar apoio a uma convocatória de atos contra o Parlamento e contra o STF. Tudo começou com uma crítica do General Heleno, que vazou, em que chamava o parlamento de chantagista ou algo desse jaez.

Denunciei na hora. Fui trucidado por adeptos do Presidente. Para eles, Tout vás três bien. E a culpa é de quem denuncia e critica. Levei o maior pau, inclusive de gente que separa sujeito de verbo.

“- Você é ridículo”. “Você é intransigente”. “Por que não vai para Venezuela, em vez de ficar espalhando notícias falsas”. Notícias falsas? O vídeo endossado por Bolsonaro era falso?

Bom, logo a verdade veio à tona. O vídeo era verdadeiro. E, pior, não era de 2015, como dissera, em defesa, o Presidente. Afinal, no vídeo esse, narrado por um funcionário público, ele aparece no ato da facada. Logo, não podia ser de 2015.

Bom, logo vieram editoriais dos grandes jornais, inclusive do comunista Estadão. E críticas de todos os lados, dizendo que o Presidente estava flertando com o golpismo e coisas do gênero. O insuspeito decano do STF (teria virado esquerdista-comunista?) disse que o Presidente, ao assim proceder, não estava à altura do seu cargo. Elogios ao Presidente? Sim, de Magno Malta. Grande filósofo contemporâneo. E dos filhos do Presidente. De alguns deputados. E nas redes sociais, as neocavernas. E dos meus detratores. Que misturam divergências pessoais com divergências políticas.

Fui xingado. Do feicebuki ao uatisapi. Bom, então têm de xingar também o Estadão. O decano. E tanta gente. E João Doria, notório esquerdista. Mas os defensores do Presidente acham que sempre estão certos. O PR não erra. E que a culpa é da esquerda, sabe-se lá o que seja isso, se o Estadão, jornal conservador, é assim epitetado pelos adeptos do governo. O Globo, histórico veículo apoiador de setores da direita política, é considerado comuna, hoje. E a terra é plana, claro. E Adão e Eva existiram.

Bueno. Tão certo estava o Presidente que… recuou, dizendo que o tal vídeo era de 2015. Com a palavra, meus detratores. Ou, de fato, tout va très bien em Pindorama? Será mesmo? Eu perdoo. Muitos não sabem o que dizem. Outros sabem bem demais.

Post scriptum: lamento profundamente a partida de Marne Barcelos. Tínhamos uma ótima relação. E sempre, pelas costas, falávamos mal do Vitorino. Que gosta de mim e gostava de Marne. Que gostava de nós.

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