Terça-feira, 07 de Julho de 2020

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Mundo Um cardeal admitiu que a Igreja Católica destruiu arquivos sobre abusos sexuais

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O cardeal Reinhard Marx durante reunião no Vaticano. (Foto: Reprodução)

A Igreja Católica destruiu arquivos sobre os autores de abusos sexuais, reconheceu neste sábado (23) o cardeal alemão Reinhard Marx, durante uma reunião histórica no Vaticano sobre a luta contra a pedofilia.

A cúpula, iniciada na quinta-feira (21), será concluída neste domingo (24) com um discurso do papa Francisco. Segundo Reinhard Marx, que é presidente da Conferência Episcopal Alemã os arquivos sobre abusos sexuais, foram destruídos ou nem sequer “chegaram a ser criados”.

Se existissem, ele poderiam ter documentado os atos cometidos na igreja e indicar o nome dos responsáveis. “Os procedimentos e trâmites fixados para perseguir estes delitos foram deliberadamente ignorados, e inclusive apagados ou cancelados”, insistiu.

A pedofilia contra crianças e jovens se deve, em grande parte, ao “abuso de poder da administração”, apontou o cardeal alemão em seu discurso. Ele lamentou que ao invés de punir os culpados, “as vítimas foram as repreendidas, silenciadas e seus direitos pisoteados.”

O religioso alemão é conhecido por suas posições progressistas. Ele pediu mais transparência sobre os julgamentos realizados pela igreja católica e exigiu a divulgação do número de casos examinados pelos tribunais eclesiásticos, assim como detalhes sobre os mesmos.

Nesta sexta-feira (22), durante uma reunião histórica sobre pedofilia no Vaticano, vítimas se emocionaram, mas consideraram insuficientes as medidas propostas pelo papa Francisco para erradicar o abuso.

A cúpula, que reúne 114 presidentes de conferências episcopais de todo o mundo termina neste domingo com um discurso do Papa. Não há previsão de adoção de um documento final, embora no curso das sessões de trabalho seja possível que se estabeleçam algumas medidas específicas.

Hipocrisia

Uma freira disse neste sábado a bispos que reconhece a hipocrisia da Igreja Católica na forma como a instituição lidou com casos de abuso sexual, e um cardeal admitiu que documentos foram destruídos.

A irmã Veronica Openibo, uma nigeriana que trabalhava na África, Europa e Estados Unidos, apresentou com uma voz macia uma importante mensagem aos prelados que estavam diante dela: “A tempestade não vai passar”.

Ela deu a declaração no início do penúltimo dia de um encontro no Vaticano com cerca de 200 autoridades da Igreja, convocadas pelo papa Francisco para confrontar o que ele chamou de castigo devido a abusos sexuais no clero.

“Proclamamos os Dez Mandamentos e nos consideramos guardiões dos padrões e valores morais, e do bom comportamento da sociedade. Hipócritas às vezes? Sim! Por que mantivemos isso oculto por tanto tempo?”, perguntou.

Ela disse ao papa, que estava sentado ao seu lado no estrado, que ele era “humilde o suficiente para mudar de ideia”, pedir desculpas e tomar atitudes depois de ter inicialmente defendido um bispo chileno acusado de acobertar um abuso. O bispo acabou renunciando.

“Como o clero pôde se manter em silêncio, acobertando todas essas atrocidades? O silêncio, carregando os segredos nos corações dos perpetradores, a duração desses abusos e as constantes transferências de perpetradores foram inimagináveis”, disse.

Ela contou sobre seu choque quando assistiu ao filme vencedor do Oscar “Spotlight”, de 2015, que contou como líderes da Igreja em Boston transferiram padres de paróquia em paróquia em vez de exonerá-los e entregá-los às autoridades.

“No momento, estamos em estado de crise e vergonha. Obscurecemos seriamente a graça da missão de Cristo”, disse Openibo. “Temos de reconhecer que nossa mediocridade, hipocrisia e complacência nos trouxeram a este lugar desgraçado e escandaloso onde nos encontramos como Igreja. Paramos para rezar: Deus, tenha piedade de nós”, disse.

Ela afirmou que a Igreja tem que acabar com o hábito de acobertar eventos com medo da repercussão. “Muito frequentemente a gente mantém fatos sob silêncio até que a tempestade passe. A tempestade não vai passar. Nossa credibilidade está em jogo”, acrescentou, dizendo que a hierarquia masculina da Igreja deveria deixar que mais mulheres se envolvessem na luta contra os abusos.

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