Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 8 de outubro de 2022
Independentemente de quem for escolhido no segundo turno pelos brasileiros para subir a rampa do Palácio do Planalto em janeiro de 2023, o próximo presidente do País encontrará, diante da mesa, situações preocupantes a lidar no que diz respeito à saúde – como uma queda drástica na vacinação de crianças, uma alta na mortalidade materna, um orçamento para a área bem mais baixo do que o recomendado e um ministério remexido por uma grande alternância no comando nos últimos quatro anos.
De acordo com uma pesquisa do instituto Datafolha divulgada no início de setembro, a saúde é a área mais importante para os brasileiros na hora de definir seu voto para presidente, seguida da educação.
Por isso, a BBC News Brasil buscou dados e especialistas na área para avaliar quais serão os principais desafios na saúde a serem enfrentados pelo próximo presidente em um país onde a maioria da população depende unicamente do Sistema Único de Saúde (SUS) – apenas 25,6% da população tem planos de saúde, segundo dados de julho da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
A queda brusca da cobertura vacinal contra várias doenças, alvo de alertas disparados neste ano por instituições como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), foi um dos problemas mais urgentes apontados pelos entrevistados.
Por exemplo, a vacina BCG, que previne contra a tuberculose e tradicionalmente tem alta taxa de vacinação por ser aplicada no primeiro mês de vida do bebê, não tem 100% de cobertura desde 2015. Segundo números do DataSUS, a partir de 2020, a cobertura ficou abaixo de 80%: foi de 75,6% em 2020 e 70,7% em 2021 (entretanto, dados mais recentes, de 2021 e 2022, estão mais sujeitos a alterações, por isso são considerados parciais).
A imunização contra a poliomielite teve 100% de cobertura pela última vez em 2013. Desde 2016, ficou abaixo dos 90%, chegando a 76,1% em 2020 e a 69,9% em 2021. Com essa queda, a Opas colocou o Brasil como um dos países sob alto risco de volta da poliomielite.
A tríplice viral D1, que previne contra o sarampo, caxumba e rubéola, também vem registrando constante diminuição, saindo da total cobertura em 2014 para 79,7% em 2020.
“A gente não atingiu meta (de cobertura) em todas as vacinas. Já havia uma queda que se iniciou em 2015 e agora, durante a pandemia, se acentuou. A gente não tem um plano claro do governo federal atual para recuperação disso”, aponta o infectologista Julio Croda, da Fiocruz Mato Grosso do Sul.
“A gente sempre teve um Programa Nacional de Imunizações (PNI) muito forte. O que está acontecendo é grave, porque vacina é a principal intervenção custo-efetiva, é a que mais salva vidas do ponto de vista de intervenções na área de saúde.”
A diminuição da vacinação infantil é um fenômeno global recente, segundo a Unicef. Entretanto, para Croda, o governo federal falhou nos últimos anos em garantir sistemas de informatização adequados e uma comunicação que combatesse notícias falsas contra vacinas.
Atenção primária
Em outra frente, uma das atividades desempenhadas na atenção primária de saúde é o pré-natal, e, ao que tudo indica, este e outros cuidados relativos às gestantes precisarão de maior atenção, porque a mortalidade materna cresceu nacionalmente e em todas as regiões do país de 2019 para 2020, segundo documento do próprio Ministério da Saúde.
O Brasil registrou 57,9 óbitos para cada 100 mil nascimentos em 2019 e 74,7 em 2020. Segundo dados preliminares levantados pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), em 2021, o número chegou a 107 a cada 100 mil nascimentos. Um estudo recente do Ieps mostrou que as mulheres pretas estão ainda mais vulneráveis à mortalidade materna do que as brancas.
Também economista no Ieps, Rony Coelho explica que as causas do aumento ainda estão em estudo. “Temos um trabalho preliminar em curso, e é possível indicar que houve um aumento muito grande da por doenças virais em 2020 e 2021, o que é um indicativo que estão associadas mais diretamente à covid. Mas, provavelmente, o excesso de morte se deu também pelo colapso do sistema de saúde (na pandemia)”, diz Coelho.
“É sempre bom lembrar, mais de 90% das mortes maternas são por causas evitáveis, como apontam diversos estudos e especialistas, e boa parte dessas causas podem ser previamente diagnosticadas justamente na atenção primária, que estava com sobrecarga (nos primeiros anos da pandemia).” As informações são da BBC News Brasil.
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