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Por Redação O Sul | 10 de setembro de 2020
O Brasil registrou na quarta-feira (9) o terceiro dia de queda consecutiva na média móvel de mortes por Covid-19. Todas as datas com queda no índice foram registradas no mês de setembro. Antes disso, não houve outros períodos de queda na média móvel.
A notícia é boa, mas, segundo especialistas ouvidos pelo portal de notícias G1, o dado deve ser interpretado com cautela, uma vez que os registros são recentes para já afirmar que esta é a tendência da pandemia no Brasil.
Para explicar os principais pontos do tema, os especialistas respondem, abaixo, às seguintes perguntas:
1) A queda na média móvel representa a realidade de todo o País?
O epidemiologista Paulo Lotufo afirma que é preciso olhar com ponderação para a média móvel nacional, uma vez que o Brasil tem diferentes epidemias acontecendo ao mesmo tempo.
“O coronavírus não atingiu todo o Brasil ao mesmo tempo, chegou primeiro em São Paulo capital e foi se espalhando. É complicado falar da pandemia no Brasil como um todo, pois ela tem uma realidade própria em cada lugar, tem dinâmicas muito distintas”, afirma Lotufo.
Por isso, o epidemiologista prefere analisar a curva epidêmica de cada estado separadamente.
2) O que explica a queda na média móvel das mortes?
O epidemiologista Pedro Hallal, reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), explica que, ao contrário de países da Europa que conseguiram conter a disseminação do vírus por meio de políticas de saúde pública rigorosas, a queda das mortes na média móvel brasileira é resultado do que os cientistas chamam de “história natural da doença”.
“Fizemos pouca política de isolamento, falhamos com a saúde pública, não conseguimos conter o vírus, deixamos seguir a ‘história natural da doença’, em que um vírus diminui a sua disseminação naturalmente quando atinge o seu próprio limite. É o que está acontecendo neste momento no Brasil”, afirma o epidemiologista.
Hallal lembra que, em abril, o Ministério da Saúde previu que a curva epidemiológica começaria a baixar em junho ou julho, mas como as medidas para conter a Covid-19 não foram tomadas no tempo certo, o pico da pandemia se transformou em um platô, matando por semanas mais de mil pessoas por dia.
“O vírus está nos mostrando que a sua história natural foi bem mais longa que isso. Nossa curva durou de março a setembro pelo fato de que o Brasil descumpriu sistematicamente as recomendações da ciência, como lockdown e distanciamento. Pagamos o preço, tivemos a curva epidêmica mais longa do mundo”, diz Hallal.
3) A queda significa que o Brasil atingiu o pico da pandemia?
Segundo o infectologista Chebabo, todo o Brasil já alcançou o pico da pandemia. “Estamos em uma fase de redução de números de casos justamente porque atingimos o pico em todos os estados. Então, a tendência agora é diminuir, mas a gente tem que esperar para ver se a queda irá se manter”, diz Chebabo.
“[Em epidemias] você tem um pico e, após ele, a transmissão continua acontecendo, mas num limiar mais baixo. É o que está acontecendo no Brasil agora e o que já aconteceu em quase todo o mundo. É a evolução natural da doença”, compara o infectologista.
4) A queda significa que o Brasil atingiu a imunidade de rebanho?
A imunidade de rebanho ocorre quando uma parcela grande o suficiente de uma população foi infectada naturalmente e desenvolveu uma defesa contra o vírus. Com isso, o vírus não consegue se espalhar.
“Numa imunidade de rebanho, você tem uma circulação muito baixa do vírus porque a maioria das pessoas está imune. Isso não aconteceu no Brasil, o vírus continua se espalhando de pessoa a pessoa aqui, ele está em intensa circulação”, diz Chebabo.
Um estudo da UFPel de julho mostrou que, apesar das mais de 120 mil mortes no País, apenas 3,8% dos brasileiros já foram infectados com o coronavírus.
Para Hallal, imunidade de rebanho não é uma solução para conter a pandemia, uma vez que, para ser alcançada, milhões de brasileiros ainda precisariam ser infectados.
5) A queda na média móvel das mortes será constante daqui em diante?
Não necessariamente, uma vez que ainda existem muitas pessoas suscetíveis ao vírus.
“As quedas ainda são recentes. Precisamos acompanhar para vez se a tendência se manterá. O vírus não parou de circular”, diz Chebabo.
6) Já é possível relaxar medidas de isolamento?
Para Hallal, é possível afrouxar as medidas de confinamento e pensar em reabertura de algumas atividades, porém com restrições e analisando caso a caso.
“A queda na média móvel não quer dizer que é possível retomar todas as atividades. Por outro lado, quando a curva epidemiológica está descendente, é possível planejar uma retomada da economia de forma gradativa. E deve levar em consideração o cenário epidemiológico de cada estado – diria até de cada cidade”, diz Hallal.
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