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Saúde Vício em bets faz procura por atendimento médico e psicológico aumentar em 104% no Brasil

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Há cerca de 1,4 milhão de brasileiros dependentes de apostas. (Foto: Freepik)

Desde a liberação das casas de apostas online no Brasil, popularmente conhecidas como bets, o número de pessoas com dependência relacionada às apostas ou que têm um padrão de jogo de risco tem aumentado expressivamente. Dados do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III) mostram que 7,3% da população brasileira, o que equivalente a 10,9 milhões de pessoas, já apresenta um padrão de jogo de risco ou problemático e que cerca de 1,4 milhão tenha desenvolvido uma dependência relacionada às apostas.

O número de pessoas que buscam ajuda para a condição também aumentou. Dados da pasta mostram que 10.553 atendimentos relacionados a jogo patológico e mania de jogo e aposta foram registrados no SUS entre janeiro de 2018 e maio de 2025, tendo um aumento de 104% no período analisado. Desse total, 4.316 foram atendimentos ambulatoriais, que incluem os realizados nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps). Porém, o Ministério da Saúde alerta para subnotificação e projeta que o número de atendimentos seguirá aumentando.

Desde dezembro do ano passado, quando o governo federal lançou uma ferramenta de autoexclusão de plataformas de bets, mais de 1 milhão de pessoas já se inscreveram no serviço, de acordo com informações da Agência Brasil.

Em março deste ano, o Ministério da Saúde criou uma estratégia específica de teleatendimento para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas. O serviço começou com capacidade para 600 atendimentos mensais. Diante da alta procura pelo cuidado, a capacidade foi posteriormente ampliada para até 100 mil teleatendimentos mensais. De acordo com o Ministério da Saúde, desde o fim de março, 27.703 pessoas se cadastraram para o serviço.

A tendência também é observada nos consultórios particulares.

“Temos observado um aumento muito grande na procura por tratamento para esse tipo de transtorno, não só nos serviços públicos de saúde como nos consultórios particulares”, diz o psiquiatra Emílio Tazinaffo, pesquisador em dependências comportamentais pela USP e co-coordenador do Programa Elibrè para Jogos & Apostas.

O fenômeno levou a Elibrè, instituição de saúde mental localizada em Cotia (Grande São Paulo), lançar o Programa Elibrè para Jogos & Apostas, uma iniciativa privada do país a propor um tratamento integrado para o transtorno do jogo. A proposta segue o que existe de mais moderno nos cuidados desse tipo de vício, reunir em um único plano terapêutico o cuidado psiquiátrico, financeiro, familiar e social do paciente.

O psiquiatra Rodrigo Machado, pesquisador em dependências comportamentais pela USP e co-coordenador do Programa Elibrè para Jogos & Apostas, explica que, na prática, a maior parte das pessoas afetadas pelo jogo começa procurando um psicólogo, depois um psiquiatra, e em alguns casos tenta reorganizar sozinha as finanças, enquanto a família tenta ajudar do jeito que consegue. Cada uma dessas iniciativas é importante, mas o desafio é que elas costumam acontecer de forma independente, sem que ninguém esteja de fato conectando as peças. Com frequência, o próprio paciente é o elo entre profissionais, estratégias e decisões.

“A grande maioria dos programas de tratamento para transtorno do jogo ainda foca quase exclusivamente no comportamento de apostar, ou seja, em apenas uma das facetas do adoecimento. Mas o que a ciência tem visto é que o processo de adoecimento é muito complexo e multifacetado”, avalia Machado.

O médico Ary Ribeiro, diretor-executivo da Elibrè, alerta para outro impacto do transtorno do jogo que é na sociedade. Segundo ele, cada pessoa com a condição afeta, em média e de forma estimada, ao menos seis pessoas ao seu redor.

“A fragmentação do cuidado é um problema crítico no Brasil e atravessa praticamente todas as especialidades da saúde. Na saúde mental, porém, ela ganha proporção ainda maior porque o adoecimento nunca é individual”, diz Ribeiro.

Além disso, quem sofre com essa doença costuma buscar ajuda apenas em estágio já muito avançado.

“Quando somamos esses fatores, o tratamento se complica, o risco de recaída aumenta e o adoecimento pode se estender à própria rede de apoio. É exatamente essa cadeia que um modelo integrado interrompe”, completa o diretor-executivo da Elibrè.

Além da falta de estratégias de tratamento integrado, no Brasil faltam especialistas e serviços especializados no tratamento do transtorno de jogo. Um levantamento divulgado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) no ano passado sobre o impacto das bets na Saúde e Economia, mostrou que na Rede de Atenção Psicossocial (Raps) faltam profissionais especializados e até mesmo espaço físico para o tratamento.

“Há problemas na articulação entre as áreas responsáveis, falta de indicadores específicos para monitorar o problema e poucas campanhas de conscientização sobre os riscos do vício. Além disso, o número de atendimentos registrados como jogo patológico pode estar subestimado e as ações para detectar precocemente casos de dependência são limitadas”, diz o relatório do TCU. (Com informações do jornal O Globo)

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