Quarta-feira, 01 de julho de 2026
Por Redação O Sul | 1 de julho de 2026
Você sabia que fazer uma criança rir pode ajudar no desenvolvimento cerebral dela? Muito além de um sinal de alegria, o riso infantil pode ser um instrumento útil para o aprendizado dos pequenos, contribuindo ainda com a memória, regulação emocional e gerenciamento do estresse.
O riso surge antes da fala e ajuda a criança a se conectar emocionalmente com o mundo já nos primeiros meses de vida. Isso acontece porque as estruturas cerebrais relacionadas às emoções amadurecem antes das áreas responsáveis pela linguagem, de acordo com a neuropediatra Leticia Sampaio, do Instituto da Criança e do Adolescente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (ICr/HCFMUSP).
Mas como esse processo se dá no cérebro das crianças? Veja a seguir.
Mecanismos por trás do riso infantil
Quando um bebê ou uma criança dá risada, áreas cerebrais distintas trabalham simultaneamente.
“Estruturas do sistema límbico — responsáveis pelas emoções — são ativadas, especialmente em situações de prazer, surpresa e interação social. Ao mesmo tempo, regiões corticais relacionadas à cognição e ao comportamento social ajudam a interpretar estímulos afetivos e contextos de brincadeira”, explica Letícia.
Há ainda participação dos circuitos motores, que coordenam a expressão física do riso, incluindo os movimentos faciais, a vocalização e o controle respiratório.
Também ocorrem a redução do cortisol, o hormônio do estresse, e a liberação de substâncias ligadas ao prazer e ao bem-estar, como dopamina, endorfina e ocitocina.
Benefícios do riso para as crianças
Durante a infância, o cérebro se desenvolve de forma intensa. Nesse contexto, o riso funciona como um sinalizador de que há segurança para explorar, aprender e se conectar, segundo Jacqueline Harding, especialista em primeira infância e pesquisadora na Universidade de Middlesex, nos Estados Unidos.
Jacqueline defende que o humor funciona como uma “cola biológica” para as relações humanas. “Momentos lúdicos permitem que as crianças liberem tensões de maneira segura enquanto permanecem conectadas a adultos acolhedores”, diz.
Já a psicóloga Maria Beatriz Linhares, professora e pesquisadora da USP e integrante do Núcleo de Ciência pela Infância (NCPI), conta que o riso compartilhado é indicador de vínculo afetivo e segurança emocional. Ela reforça que, além da sensação de sintonia emocional, a criança experimenta o acolhimento e a conexão com seus cuidadores.
Segundo Maria Beatriz, essas trocas “vão ajudando a construir o vínculo afetivo necessário como a base segura do desenvolvimento humano”.
Outros benefícios incluem o suporte na formação das crianças, na construção da resiliência e no fortalecimento de conexões neurais ligadas à regulação emocional, empatia e habilidades sociais.
Os momentos de brincadeira e diversão funcionam como experiências de “corregulação” — a interação com o adulto ajuda crianças e bebês a organizarem emoções que eles ainda não conseguem regular sozinhos.
Isso não significa que o riso elimine as dificuldades ou o estresse, mas que ele pode ajudar a criança a mudar sua relação com esses desafios.
Importância da conexão
Em uma rotina cheia de telas, distrações e excesso de estímulos, as especialistas alertam que a conexão humana continua sendo essencial para o desenvolvimento infantil.
Um experimento da psicologia do desenvolvimento chamado “still face”, ou “paradigma da face imóvel”, exemplifica essa importância. Nele, o cuidador interage com o bebê e depois interrompe suas expressões emocionais de forma repentina. A mudança gera nos pequenos uma busca por reconexão, seja sorrindo, vocalizando ou se movimentando. Quando não conseguem a atenção dos adultos, os bebês demonstram desconforto, irritação e retraimento.
Essa conexão, vale destacar, não significa necessariamente criar atividades super elaboradas. Momentos simples do cotidiano, como conversar, cantar, brincar e inventar histórias, já estimulam o cérebro. Mais do que isso: para Maria Beatriz, os momentos de brincadeira são uma das melhores “vacinas” durante o desenvolvimento infantil. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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