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Dezesseis crianças já foram baleadas no Rio neste ano

Moradores do Complexo do Alemão protestam contra o assassinato de Agatha Felix, de 8 anos, após uma ação da Polícia Militar na comunidade. (Foto: Reprodução/Facebook/Voz das Comunidades)

O enterro do corpo de Ágatha Vitória Sales Félix, de apenas 8 anos, foi marcado por indignação e comoção, na tarde deste domingo (22), no cemitério de Inhaúma, zona norte do Rio de Janeiro. A menina foi atingida nas costas por um tiro de fuzil dentro de uma Kombi no Complexo do Alemão, na noite de sexta-feira (20). As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

“Ela está no céu, que é o lugar que ela merece”, disse o avô da menina, ao lado de outros parentes, todos inconsoláveis. O cortejo até o cemitério reuniu uma pequena multidão. “A polícia matou um inocente. Não teve tiroteio nenhum. Foram dois disparos que ele deu. É mentira!”, gritava, muito abalado, um homem que seria o motorista da Kombi (que ajudou a socorrer a menina) e que teria visto um policial atirando.

No velório, outras pessoas contestaram a versão oficial da Polícia Militar, de que Ágatha teria sido ferida num confronto entre policiais e criminosos. “Quem matou foi o Estado”, dirigiu-se um homem a jornalistas, sem se identificar. “Não houve confronto”, completou outro.

A Polícia Civil informou que enviará para perícia as armas dos policiais militares que estavam em patrulhamento na noite de sexta-feira no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, no momento em que Ágatha foi atingida. A Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ) informou que está acompanhando o caso.

Agatha é ao menos a 16ª criança morta por disparos de arma de fogo na região metropolitana da capital fluminense neste ano, segundo levantamento divulgado pela organização Fogo Cruzado, que mantém um aplicativo que informa ocorrências de tiroteio na região. A família de Agatha acusa a Polícia Militar do Rio pelo disparo. A gestão Wilson Witzel (PSC) diz que havia um “confronto” no momento do disparo e informa que o caso está sob apuração.

Desses 16 baleados, quatro foram mortos, de acordo com o levantamento. Há envolvimento de policiais nos tiroteios que resultaram nas mortes de Jenifer Silene Gomes, de 11 anos, e de Kauã Vítor Nunes Rozário, também de 11. Em fevereiro, quando Jenifer morreu, sua família afirmou à imprensa carioca que o disparo havia sido dado por um policial à paisana que estaria perseguindo traficantes. Ela estava na porta de um bar, descascando cebolas, na favela de Jacarezinho, quando foi atingida.

Já Kauã estava andando de bicicleta, no Bangu, quando policiais e criminosos entraram em confronto. Um taxista também foi morto pelas balas perdidas e uma terceira pessoa também foi atingida.

O levantamento do Fogo Cruzado aponta que apenas em março nenhuma criança foi atingida por tiros na região, quando quatro houve quatro vítimas. Dois eram fetos, ambos de mães que estavam no oitavo mês de gestação. Um deles, que se chamaria Arthur, chegou a ficar um mês internado antes de morrer.

De janeiro a agosto, a polícia fluminense matou 1.249 pessoas – alta de 16,2% ante o mesmo período de 2018. Witzel defende abertamente o uso de atiradores de elite em operações policiais em comunidades, assim como o uso de snipers para abater bandidos.

Em nota, ao comentar a morte de Agatha, a gestão Witzel afirmou que a política de segurança “é baseada em inteligência, investigação e reaparelhamento das polícias”. Destacou ainda a queda de 21% dos homicídios dolosos nos primeiros oito meses do ano, menor índice para o período desde 2013.