Últimas Notícias > Capa – Caderno 1 > Tentativa de assalto em bairro de Novo Hamburgo termina com guarda municipal baleado

Atriz Lucélia Santos relembra “virada artística” em obras de Nelson Rodrigues e diz que “fará o possível” para derrubar um ministro

Matheus Nachtergaele e Lucélia Santos em cena do filme "A serpente". (Foto: Jura Filmes/Divulgação)

Lá pelas tantas, Lucélia Santos repete que o tempo corre de acordo com o carma. Espécie de máxima pessoal, a frase é enfatizada como justificativa para diferentes questões. Há cerca de um mês em Portugal, onde grava a novela “Vida louca”, da emissora portuguesa TVI, a artista ainda não sabe quando voltará ao Brasil. Da mesma forma, também não consegue identificar o motivo de ter se mantido afastada, por cerca de uma década, da produção de filmes e folhetins televisivos em solo nacional.

“Devo ter passado por um eclipse, e isso faz parte da natureza”, compara a paulistana de 62 anos, de volta às telas com a adaptação cinematográfica de “A serpente”, de Nelson Rodrigues , em que divide o o protagonismo com Matheus Nachtergaele sob direção do pernambucano Jura Capela (e a partir de quinta-feira, 25, nos cinemas).

Intérprete de uma lista considerável de personagens rodriguianas — e tida como a atriz preferida do dramaturgo, a quem ele chamava de “força da natureza” —, Lucélia igualmente se reconecta, agora, com o passado consagrado como a mocinha de “A escrava Isaura” (1976), de Gilberto Braga. É que, em Portugal, na trama escrita pelo autor Rui Vilhena, ela volta a formar uma dupla com o ator Edwin Luisi , seu antigo parceiro na icônica novela.

1) Há dez anos, você não integrava o elenco de um filme. Por quê?

Você sabe que amo cinema. A resposta deve ser: tudo de acordo com o carma, nada além disso. Devo ter passado um período como num eclipse lunar. Isso também faz parte da natureza. Talvez da minha própria natureza.

2) Qual questão chama mais atenção em “A serpente”?

O Nelson é tão moderno, tem tanta poesia, é tão atual. Ele é o Dostoiévski da língua portuguesa. Pensei isso nesta semana, ao ouvir uma leitura de “Perdoa-me por me traíres”. Aliás, que título! O que mais sobressai em “A serpente”, a meu ver, é o machismo. Todas as mulheres da trama são submetidas ao sexo masculino. Não há escolha.

Sem dúvida, enxergo esse momento como uma virada profissional. Mas foi algo programado por mim. Precisava expressar minha veia de atriz, e tive apoio de Héctor Babenco (diretor) e de Nelson e também do (John) Neschling, meu marido na época.

3) Nesta mesma época , você posou nua na extinta revista “Playboy”, estrelou o filme “Luz del Fuego” (1982), com cenas de nu… Foi também uma afirmação consciente?

Sim, fui minha própria diretora de imagem na carreira. Naquele período, não existia esse profissional, e, mesmo que existisse, eu teria feito do meu jeito. Se me arrependo? Absolutamente. Fiz tudo o que quis.

4) Nelson Rodrigues dizia que você era uma “força da natureza”…

Sempre pensei artisticamente e sempre quis arriscar como atriz e como mulher. Não sabia se o conseguiria. Então, o Nelson me disse: “Minha cara, o ator tem de saltar do último trampolim, de cabeça, e com os olhos vendados.” Era o que eu precisava e queria ouvir. Tudo se encaixou. Vim ao mundo para isso! Sou visceral. E sou cada vez mais selvagem e energia bruta, como a origem da vida.

5) Por isso não se esquiva de se posicionar politicamente?

Tenho sido muito xingada nas redes sociais porque bato bem e coloco claramente minha posição antifascista ao que esse governo representa. Sou antirracista, antimachista, feminista, pró-LGBT, a favor da diversidade religiosa e, principalmente, pró-Floresta Amazônica. Há 30 anos, desde Chico Mendes, luto pelas árvores e povos das florestas. E vou continuar lutando. E te digo mais: quero expulsar esse ministro do Meio ambiente. Farei tudo o que for possível para não permitir que ele avance. Entende agora por que me xingam?

6) Mas como reage aos comentários ofensivos?

No máximo que posso, respondo a alguns, peço a outros para se retirarem… E bloqueio a maioria. Penso em processar algumas pessoas, mas, no fundo, até me divirto com alguns xingamentos. Chato são os muito grosseiros, os violentos… Daí não acho graça. Mas quando é do tipo muito burro, formado por anticomunistas, antipetistas, anti-Lei Rouanet, numa vibe de ameaças com argumentos do gênero robô psicológico, tenho compaixão. Há muitos seres vivos se fazendo de robôs do Bolsonaro, e isso é trágico. Penso como o Nelson Rodrigues agiria nas redes sociais neste momento. Ele traria para o lado de cá, da arte, esses imbecis.

7) Alguns veículos noticiaram que você vinha se sentindo perseguida no Brasil…

Vamos esclarecer: não disse isso! Não usei, jamais, a palavra “perseguida”. E não diria uma mentira. Nunca fui perseguida por esse governo. Por sorte, eles me desconhecem. O povo que o segue é que é maligno e tóxico. E burro!

8) E por que esteve, há mais de uma década, sem participar de novelas no Brasil?

Tem a questão de a TV aberta ainda ser um pequeníssimo mercado no Brasil. E está dominado, mergulhado num mundo tóxico. Começou a mudar agora, com as várias novas produtoras, como a Netflix, a HBO, a Amazon… Creio que terei boas perspectivas!

9) Pensa em voltar ao Brasil?

Tudo vai acontecer de acordo com o carma. O meu e o do Brasil.

Deixe seu comentário: