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A foto de pai e filha afogados se torna o símbolo da travessia mortal para entrar nos Estados Unidos

Óscar Martinez e Valeria, de El Salvador, morreram enquanto tentavam atravessar o Rio Grande. (Foto: Reprodução)

Pai e filha deitados com a barriga para baixo, rostos mergulhados na água turva do Rio Grande — Rio Bravo para os mexicanos —, que separa o México dos Estados Unidos. A cabeça da menina enfiada na blusa do pai, seu bracinho pendurado no pescoço do homem.

O retrato de desespero foi capturado na segunda-feira (24) pela jornalista Julia Le Duc, horas depois de Óscar Alberto Martínez Ramírez ter se afogado com Valeria, sua filha de 1 ano e 11 meses, quando tentavam chegar aos Estados Unidos.

A imagem é um resumo doloroso da perigosa jornada que os imigrantes enfrentam em busca do “sonho americano” e das trágicas consequências que costumam passar despercebidas no debate acirrado que ocorre atualmente nos Estados Unidos sobre a questão fronteiriça.

Ela remete a outras fotos chocantes que chamaram a atenção para os horrores de guerras e para o sofrimento de refugiados e imigrantes — histórias que são geralmente engolidas pelos eventos maiores. Como a foto de uma criança síria retirada dos destroços em Alepo, na Síria, a de um bebê malnutrido observado por um urubu, no Sudão, e a do menino sírio Aylan Kurdi, que morreu afogado em uma praia da Grécia, o retrato de Martínez e Valeria é suficientemente forte para impactar a opinião pública.

A jovem família de El Salvador — Martínez, de 25 anos, Valeria e sua mãe, Tania Vanessa Ávalos, de 21 — ficou por dois meses em um abrigo mexicano na cidade de Tapachula, no Sul do México, antes de tentar cruzar o Rio Grande, onde aconteceu a tragédia.

Os três começaram a atravessar o Rio Grande no meio da tarde de sábado (22). Segundo Ávalos, Martínez nadava com Valeria nas costas, presa em sua camisa, enquanto ela ia atrás, carregada por um amigo. Em entrevista ao jornal La Jornada, Ávalos contou que o marido conseguiu chegar à outra margem, deixou a menina e voltou para ajudá-la.

Nesse momento, a bebê voltou a entrar na água, aparentemente por medo de ficar sozinha. Oscar tentou resgatá-la, mas ambos foram arrastados pela corrente. Na segunda-feira, os corpos foram recuperados pelas autoridades mexicanas, algumas centenas de metros à frente, na mesma posição.

“É muito triste que isso tenha acontecido”, disse o presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador, durante entrevista coletiva na terça-feira (25), afirmando que, conforme o número de imigrantes rejeitados pelos americanos aumenta, “há pessoas que perdem suas vidas no deserto ou cruzando o Rio Bravo”.

Enquanto a foto viralizava nas redes sociais na terça, democratas na Câmara dos Estados Unidos aprovaram US$ 4,5 bilhões em ajuda humanitária para os imigrantes retidos em abrigos e centros de detenção na fronteira com o México. Nesta quarta (26), porém, o Senado, de maioria republicana, rejeitou o projeto da Câmara e aprovou um outro, de US$ 4,6 bilhões, que dá mais espaço para o governo de Donald Trump decidir como usará a verba. Na terça-feira, denúncias de que crianças imigrantes sofriam maus-tratos em um abrigo superlotado em Clint, no Texas, derrubou o chefe da Agência de Alfândega e Proteção Fronteiriça.

O deputado Joaquin Castro, líder do grupo latino no Legislativo, estava emocionado enquanto falava sobre a fotografia em Washington. Ele disse esperar que a imagem sensibilize os parlamentares e a sociedade americana para o drama dos imigrantes.

“É muito difícil ver essa foto”, disse Castro. “É a nossa versão da fotografia daquele menino sírio de 3 anos, morto na praia. É isso.”

 

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