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Após anos sem grande avanço, cientistas estão cautelosos mas otimistas com nova estratégia contra o Alzheimer

O campo da pesquisa do Alzheimer é repleto de decepção. (Foto: Reprodução)

Uma nova estratégia contra o Alzheimer está deixando cientistas otimistas, apesar de cautelosos, após anos sem grande avanço. O campo da pesquisa da doença é repleto de decepção. Ainda na semana passada, mais um medicamento falhou em seu ensaio clínico de Fase 3, continuando os 15 anos de derrotas desde que um tratamento verdadeiramente novo para a doença de Alzheimer foi aprovado pela FDA (órgão norte-americano equivalente à Anvisa).

Mas uma equipe de cientistas disse nesta semana que encontrou evidências iniciais — em ratos — de que uma classe de drogas existente pode atacar o Alzheimer e doenças semelhantes a partir de um ângulo diferente daquele das tentativas anteriores fracassadas.

A questão do que causa o Alzheimer não tem respostas simples. Sabemos que duas proteínas naturalmente produzidas no cérebro — beta-amiloide e tau — estão intrinsecamente ligadas à doença neurológica. Em um paciente com Alzheimer completo, aglomerados anormais de ambas as proteínas, chamados de placas e emaranhados, respectivamente, se formam e sujam o cérebro (as placas são principalmente encontradas no espaço entre as células nervosas, enquanto os emaranhados se formam majoritariamente dentro das células nervosas). Mas não sabemos se uma ou ambas dessas estruturas são as principais responsáveis pelo dano cerebral progressivo e pelo fim fatal visto no Alzheimer.

Como eram os tratamentos

A teoria mais amplamente endossada da doença é de que a beta-amiloide é a vilã principal, em parte porque as placas parecem aparecer antes dos emaranhados de tau. Portanto, cientistas e empresas farmacêuticas têm depositado suas esperanças em medicamentos capazes de romper essas placas ou evitar sua acumulação no cérebro. Mas teste após teste dessas drogas antiamiloides falharam em melhorar significativamente os sintomas das pessoas ou diminuir a progressão da doença. Muitas vezes, a falha do medicamento só se torna clara na linha de chegada do teste com humanos.

Os ensaios malsucedidos mais recentes do Aducanumab, que foram interrompidos cedo pela Biogen e pela empresa farmacêutica japonesa Eisai na semana passada, foram especialmente desanimadores.

O Aducanumab parecia ser melhor em limpar placas do que as drogas anteriores e foi testado em pacientes nas primeiras fases clínicas do Alzheimer, dois fatores que deveriam ter aumentado suas chances de sucesso. Esses fracassos mais uma vez provocaram apelos da comunidade científica para repensar ou mesmo desviar o foco e os recursos completamente para longe da hipótese amiloide da doença, como é chamada.

A nova linha de pesquisa para tentativa de cura

Os pesquisadores por trás desse estudo atual, publicado nesta semana na Science Translational Medicine, vêm buscando uma dessas alternativas há anos.

Sua pesquisa, liderada por Kenneth Kosik, neurologista da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, focou na tau como o principal motor da doença de Alzheimer ao invés do beta-amiloide. Embora os emaranhados de tau apareçam mais tarde no desenvolvimento da doença, algumas pesquisas mostraram que a disseminação anormal de tau se correlaciona melhor com a progressão visível da doença do que o beta-amiloide (em contraste, placas podem ser encontradas no cérebro de pessoas sem demência visível). E já sabemos que existem outros distúrbios neurológicos, como a demência frontotemporal, que são quase certamente conduzidos apenas por emaranhados de tau. Muitas pessoas com demência frontotemporal também herdaram mutações genéticas envolvendo a produção de tau, o que aumenta muito o risco de emaranhamento.

“No Alzheimer, você pode debater onde está o problema, mas com esses casos, não há dúvidas sobre isso”, disse Kosik ao Gizmodo.

Foi no estudo dessas mutações de tau que Kosik e sua equipe fizeram uma descoberta. Eles afirmam ter encontrado um caminho regulador nunca antes visto nas células que pode desencadear a degradação da proteína tau saudável. Essa via parece operar por meio de uma proteína chamada Rhes, que pertence a uma família maior de proteínas chamadas RAS . A família RAS é regulada por uma enzima chamada farnesiltransferase. E, por sorte, já existem drogas conhecidas por inibir a farnesiltransferase.

Esses inibidores de farnesiltransferase (FTIs, na sigla em inglês) foram originalmente desenvolvidos como drogas anticancerígenas, já que a proteína RAS mutada também é comumente encontrada em tumores, e algumas até chegaram a ensaios em humanos. Porém, embora fossem considerados seguros o suficiente para as pessoas usarem, os medicamentos não foram aprovados como tratamentos de câncer. Kosik e sua equipe, entretanto, teorizaram que os FTIs poderiam ser redirecionados para tratar distúrbios do cérebro relacionados à proteína tau, incluindo a doença de Alzheimer.

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