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Meses antes da prisão do brasileiro Carlos Ghosn, executivos agindo a seu serviço propuseram a criação de uma fundação que teria consolidado o controle dele sobre a Renault-Nissan-Mitsubishi

Carlos Ghosn em vídeo publicado em abril deste ano. (Foto: Reprodução/Twitter)

Executivos agindo a serviço de Carlos Ghosn, propuseram, meses antes da sua prisão, a criação de uma fundação sediada na Holanda que teria consolidado o controle dele sobre a aliança Renault-Nissan-Mitsubishi e sobre sua remuneração pessoal, de acordo com pessoas informadas sobre as negociações.

A proposta, discutida no segundo trimestre de 2018 por representantes de primeira escalão da Nissan, da Renault e do governo da França, seria a retomada de um plano que havia sido rejeitado um ano antes porque conferiria a Ghosn mais poder do que os principais executivos da aliança estavam dispostos a tolerar.

A segunda tentativa de estabelecer uma fundação coincidiu com os estágios iniciais de uma investigação interna da Nissan sobre Ghosn e com pressão intensificada da parte de Paris para forçar a empresa japonesa a uma fusão plena com sua parceira francesa.

Uma versão da estrutura proposta para a fundação teria conferido a ela a propriedade de todas as participações acionárias cruzadas entre as três montadoras de automóveis e autorizaria Ghosn a ditar sua remuneração sem ter de revelá-la ao mundo externo.

Pessoas familiarizadas com as conversações disseram que o tom da proposta de Ghosn alarmou figuras importantes de ambas as empresas e do governo francês, porque eles a viram como uma tentativa do então líder da Nissan e Renault de estabelecer controle não fiscalizado sobre a aliança e sobre sua remuneração.

A ideia de uma fundação para controlar a Renault-Nissan-Mitsubishi Alliance foi proposta inicialmente a Ghosn por advogados da Nissan e Renault em 2017.

O esquema propunha o estabelecimento de uma entidade sediada na Holanda que —por meio de outro veículo intermediário chamado “AllianceCo”— permitiria que Ghosn e outros executivos da aliança recebessem bonificações não reveladas, com base em uma porcentagem das sinergias obtidas pelas três empresas.

Na prática, a estrutura teria permitido que Ghosn “mantivesse o controle estratégico da Renault, da Nissan e da Mitsubishi mesmo que se aposentasse de cada uma das companhias” e que mantivesse sua remuneração, disse uma pessoa informada sobre o plano.

A proposta despertou questões sobre governança e foi firmemente rejeitada pelo governo francês. Poucos dias depois que a Renault revelou o esquema, em junho de 2017, Ghosn negou sua existência, na assembleia anual de acionistas da montadora francesa.

Mas, menos de um ano mais tarde, uma proposta revisada quanto a uma fundação foi apresentada, no momento em que Ghosn considerava uma fusão plena entre a Renault e a Nissan. Semelhante à ideia de 2017, a fundação na prática se tornaria o órgão votante decisivo, com ações em cada companhia, e seria comandada por Ghosn e uma equipe de assessores mais próximos.

A proposta revisada não passou, em uma reunião realizada em abril de 2018 entre Mouna Sepehri, assessora especial de Ghosn na Renault, Hari Nada, diretor do gabinete do presidente-executivo da Nissan, e um representante do governo francês.

Funcionários do governo francês, desconfiados de que o objetivo do esquema era garantir o controle de Ghosn sobre a aliança e sobre sua remuneração, rejeitaram de imediato a proposta apresentada por Sepehri em benefício dele.

Em lugar disso, emergiu uma nova proposta de fusão baseada em uma estrutura de holding com participação igualitária das duas parceiras, também sediada na Holanda.

“Basicamente, a ideia jamais foi apoiada pelo governo francês e não foi adiante”, disse uma pessoa próxima ao governo francês.

Embora a ideia de Ghosn para uma fundação sediada na Holanda tenha sido abandonada, a aliança criou outra fundação de caridade, em 2018, na Suíça, para onde o ex-presidente do conselho estava considerando mudar seu domicílio tributário, de acordo com duas pessoas informadas sobre o plano. A indicação dele para a presidência da fundação teria servido como justificativa para a transferência do domicílio tributário.

Ghosn não estava ciente de outras conversações sobre a fundação, desde que a ideia foi rejeitada dois anos atrás, disseram essas pessoas.

A remuneração de Ghosn e seus gastos como antigo líder da aliança têm posição central nas investigações da Nissan, da Renault e da procuradoria da Justiça em Tóquio.

O ex-presidente do conselho da Nissan foi preso em novembro e acusado de diversos delitos, entre os quais não reportar na documentação financeira da Nissan seus arranjos para pagamentos posteriores à sua aposentadoria.

Uma investigação conjunta separada, conduzida pela Nissan e Renault, também determinou que ele recebeu € 7,8 milhões em pagamentos indevidos, começando em abril de 2018, de uma joint venture entre as duas montadoras estabelecida na Holanda.

Ghosn nega todas as acusações e atribui a culpa por sua queda a um complô de executivos da Nissan que se opunham ao seu plano de fusão.

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