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“Você deságua em mim, e eu, oceano…”

Arte: Marcos Cunha/O Sul

“…pra se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração, a se falar na canção que na América…” 

Sempre ouço música com o encarte do disco nas mãos. Quero saber de quem é o arranjo, quem toca e quem compôs. As letras merecem atenção especial. Nada de preocupação com “erros” de português. Quero captar a mensagem, alcançar a beleza da tessitura do texto.

E o “grande público”? Será que dá importância às letras? Será que presta atenção ao enredo, à tessitura, à construção das orações e dos períodos, ao sentido das letras? Sei não… O pior é que nem mesmo grandes cantores escapam da demonstração de desprezo pelo texto.

Quer exemplos, caro leitor? Vamos lá. Em sua genial “Oriente”, de 1972 (está no antológico disco “Expresso 2222”, gravado em Londres), Gilberto Gil escreveu: “Se oriente, rapaz, (“¦) pela constatação de que a aranha vive do que tece”. No ano seguinte, uma das nossas maiores cantoras gravou a canção, desta forma: “Se oriente, rapaz, (“¦) pela constatação de que a aranha duvido que tece”. Isso faz sentido?

Essa mesma excepcional cantora gravou a belíssima “Canção da América” (melodia de Milton Nascimento; letra de Fernando Brant). Brant escreveu assim: “Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração, assim falava a canção que na América ouvi”. Milton gravou a canção fidelíssimo aos versos que Brant escreveu. Algum tempo depois, a mesma cantora que mencionei no parágrafo anterior gravou “Canção da América”, com estas palavras: “Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração, a se falar na canção que na América ouvi…”. “A se falar na canção”? Isso faz sentido no texto e no contexto? Não.

Outra das nossas grandes cantoras gravou “Camisa Amarela”, um dos clássicos de Ary Barroso. Lá pelas tantas, o trecho da letra que diz “Me pediu ainda zonzo um copo d’água com bicarbonato” virou isto: “Me pediu ainda às onze um copo d’água com bicarbonato…”.

Djavan compôs algumas maravilhas, entre as quais “Oceano”, em cuja letra se encontra esta passagem: “Amar é um deserto e seus temores”. Dia desses, um amigo me mostrou alguma coisa da internet em que as pessoas dizem como cantam certas canções, como entendem as letras. Na compreensão de muitas dessas pessoas, esse trecho de “Oceano” virou isto: “Amarelo é o deserto e seus temores”. Então tá.

Ainda nessa letra, há uma passagem que diz isto: “Você deságua em mim, e eu, oceano, esqueço que amar é quase uma dor”. Nem vou dizer como muita gente entende esses versos. A questão é simples: assim como o rio deságua no mar, você (ser amado) deságua em mim, portanto eu sou oceano, ou seja, o receptor da água desse rio que você é. E isso tudo me faz esquecer que amar é quase uma dor.

Agora vejamos outro aspecto da questão. Leia estes versos: “Alguma coisa acontece no meu coração, que só quando (“¦) / É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi da dura poesia concreta das tuas esquinas…”. Reconheceu, não? É da antológica “Sampa”, de Caetano Veloso. O que o caro leitor entende da passagem “da dura poesia concreta das tuas esquinas”? O primeiro sentido que vem à mente é o literal, ou seja, o da “poesia” da dureza do concreto de que são constituídos os edifícios. Mas é bom lembrar que São Paulo é o berço de um movimento artístico importante… Falo disso na semana que vem. É isso.

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